Presidente da CPI do MST atacou ‘índios’ por causa do Linhão de Tucuruí

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Tenente-coronel Zucco ofendeu membros da etnia Waimiri-Atroari em 2020, quando era deputado estadual; principal defensor das torres era o senador Chico Rodrigues, próximo de seu irmão; pai do deputado temia que “pobres” invadissem terra-natal da família

Por Tonsk Fialho, Katarina Moraes e Bruno Stankevicius Bassi

Desde a instauração da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), líderes camponeses, políticos e acadêmicos vêm denunciando o viés de criminalização da luta pela terra imposto pelo presidente do grupo, o deputado Tenente-coronel Zucco (Republicanos-RS).

De Olho nos Ruralistas já mostrou a conexão do parlamentar gaúcho com fazendeiros condenados por violações trabalhistas: “Condenado por trabalho escravo financiou presidente da CPI do MST“. E a ligação direta que possui com comunicadores da extrema-direita: “Zucco ataca MST em live reproduzida em canal condenado por fake news“. Outros fios ligam Luciano Zucco à violação de direitos territoriais.

Tenente-coronel Zucco atacou povo Waimiri-Atroari em 2020. (Imagem: Twitter)

Em uma série de postagens no Twitter, o presidente da CPI do MST declarou seu ódio aos povos indígenas, tendo uma etnia em particular como alvo: os Waimiri-Atroari (auto-denominados Kinja), de Roraima.

Desde 2012, eles travam uma intensa batalha judicial contra o Estado e o consórcio Transnorte Energia, composto pela Alupar — comandada pelo ex-presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Paulo Godoy — e pela Eletronorte. A empresa é dona da usina de Belo Monte e faz parte do grupo Eletrobrás, adquirido no ano passado pela 3G Capital, de Jorge Paulo Lemann. O objeto de disputa era a continuidade das obras de uma linha de transmissão de energia elétrica conhecida como Linhão de Tucuruí, que liga Boa Vista a Manaus, integrando Roraima ao Sistema Interligado Nacional (SIN).

Foi nesse contexto que Zucco atacou os Waimiri-Atroari em suas redes. Em 29 de abril de 2020, dias após a Justiça Federal conceder um inédito direito de resposta aos indígenas em razão de ataques racistas promovidos pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, o então deputado estadual gaúcho dedicou seu tempo a responder uma postagem da jornalista Miriam Leitão:

— Até hoje, o Estado de Roraima não possui energia elétrica ligada ao sistema nacional e a população enfrenta racionamento por causa dos Waimiri-Atroari que não deixam as linhas de alta-tensão passar por suas terras… Em qualquer outro país do mundo isso NÃO aconteceria!!

Após ser interpelado por um usuário, Zucco se referiu desta forma à etnia, que esteve entre as principais vítimas da marcha para o oeste durante a ditadura de 1964: “Me diga qual país do mundo deixa uma população de 6 milhões de pessoas sofrendo apagões por causa de 750 índios”.

O discurso repetia a narrativa bolsonarista sobre o Linhão de Tucuruí, cujo acordo foi finalmente firmado em maio de 2022, após os indígenas aceitarem a contraproposta do governo federal. Ao todo, serão aplicados R$ 133 milhões em compensações aos Waimiri-Atroari, sendo R$ 90 milhões provenientes de recursos públicos e R$ 43 milhões do consórcio Transnorte Energia.

Os conflitos territoriais entre os povos originários e o agronegócio estarão entre os temas abordados na CPI do MST. Um dos objetivos centrais da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) — da qual Zucco faz parte — é equiparar legalmente as ocupações de terra e as retomadas indígenas ao terrorismo.

SENADOR QUE RELATOU PROJETO DO ‘LINHÃO’ É PRÓXIMO DE IRMÃO DE ZUCCO

Os ataques do Tenente-coronel Zucco contra os Waimiri-Atroari faziam parte de uma ofensiva mais ampla do campo bolsonarista para aprovar o Linhão de Tucuruí, visto como principal obra de infraestrutura a ser entregue pela gestão de Jair Bolsonaro (PL).

General Marcelo Zucco (dir.) com os irmãos Luciano (centro) e Rodrigo (esq.). (Foto: Facebook)

Em 2019, o líder do governo no Senado, Chico Rodrigues (União-RR), apresentou à casa o Projeto de Lei Complementar (PLP) 275/2019, que declarava a passagem de linhas de transmissão de energia elétrica por terras indígenas de relevante interesse público da União, isentando-as, portanto, da necessidade de consulta prévia aos povos afetados.

Desenhado especialmente para acelerar a tramitação do Linhão de Tucuruí, o projeto de Rodrigues foi aprovado no Senado em maio de 2022, porém travou ao chegar na Câmara, onde ainda aguarda votação.

Naquele mesmo mês, o senador roraimense se encontrou pela primeira vez não com Luciano Zucco, mas com seu irmão, o general Marcelo Lorenzini Zucco, então recém-nomeado por Bolsonaro para o comando da 1ª Brigada de Infantaria de Selva.

Desde então, o militar e o político se encontraram em pelo menos outras duas oportunidades. Na mais recente, em fevereiro de 2023, o irmão do presidente da CPI do MST acompanhou Chico Rodrigues — um notório defensor do garimpo ilegal — em uma visita não-autorizada à Terra Indígena Yanomami, no auge da crise humanitária que assola o território.

De Olho nos Ruralistas conta, em reportagem, o histórico de omissão do general gaúcho em expulsar invasores da TI: “Irmão de Zucco negou, como comandante militar, combate ao garimpo em Roraima“.

PAI TEMIA QUE ‘POBRES’ INVADISSEM BERÇO DA FAMÍLIA NO RS

O ataque aos Waimiri-Atroari não foi a única postagem de Luciano Zucco contrária aos direitos indígenas. Em dezembro de 2021, diante do anúncio de políticas afirmativas para preenchimento de vagas em concursos públicos do governo do Rio Grande do Sul, o membro da Assembleia Legislativa fez uma postagem defendendo a “meritocracia”.

Presidente da CPI do MST atacou políticas afirmativas no RS. (Imagem: Twitter)

— Anúncio do Governo do Estado de garantir vagas em concursos públicos para pessoas trans e (…) povos indígenas é uma falácia sobre inclusão porque provoca justamente o contrário. Inclusão de verdade é feita com base na MERITOCRACIA onde todos têm chances iguais.

O pensamento do presidente da CPI do MST se alinha, em grande parte, ao de seu pai, Valmor Domingos Zucco, falecido em 2016. Em 2009, o patriarca da família demonstrou sua indignação contra os vereadores da Câmara Municipal de Bento Gonçalves, que aprovaram o loteamento de parte do Vale dos Vinhedos para a construção de moradias populares.

Em comentário no site “Falando de Vinhos”, o patriarca afirmou que, caso os terrenos fossem dados aos mais pobres, “mais e mais virão, até chegarmos ao Rio das Antas”. Ele era proprietário de parte de um lote de 4,29 hectares no mesmo município.

Valmor pedia, parte em italiano, que seus conterrâneos fugissem de Bento Gonçalves antes que o município se tornasse uma “favela”:

— Scampa via prima di diventare “favela” di Bento! Se as “figuras” que estão na Câmara pensam que a especulação imobiliária vai ceder, estão enganados! Quando chegarem ao Rio das Antas, aos limites com Farroupilha e Garibaldi, a fome dos ‘alienígenas’ dessa especulação em Bento pularão a cerca, em busca de “novas terras”! Está na hora de limitar o crescimento, já que a área de Bento não é PIB, que pode crescer, crescer!

No desabafo, ele se declara arrependido de haver votado no vereador Airton Minusculi, do PT, partido hoje combatido pelo filho. “Por ignorar o que o Sr. Minúsculli (sic) tinha em mente lhe dei meu voto, ainda que não simpatize com seu partido”, afirmou. “Só queria mudar, pensando encontrar um amigo da natureza! Que decepção, vereador, pregador! Terrenos para os pobres? Mais e mais virão, até chegarmos ao Rio das Antas!”

Foto principal (Reprodução): Luciano Zucco, presidente da CPI do MST, em ato antidemocrático em Porto Alegre

Tonsk Fialho é estudante de Direito na UFRJ e pesquisador, com foco em sindicatos e movimentos sociais. |

|| Katarina Moraes é repórter do De Olho nos Ruralistas. Também atua no Jornal do Comércio (PE). ||

||| Bruno Stankevicius Bassi é coordenador de projetos do observatório. |||

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One commentOn Presidente da CPI do MST atacou ‘índios’ por causa do Linhão de Tucuruí

  • a estes “homens de bem”
    o que vale é “índio” morto
    terra arrasada e também
    “segurança” contra o povo
    é o paraná que diz amém
    ao velho com cara de novo
    tirando milhões de quem
    sem tostão votou no ovo
    racista sob capa do bem
    querendo ver índio morto
    dos cristão tendo o amém

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