Bolsonarista e anti-quarentena: quem é o empresário que vetou contratação de indígenas

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Leandro Cabanas forneceu material de campanha para candidatos do PSL, DEM e PDT em 2020 e ganhou serviço sem licitação em município marcado por violência contra etnias; sua empresa divulgou vaga de emprego segregando povos indígenas no Mato Grosso do Sul

Por Katarina Moraes

A empresa Nohall Engenharia e Comunicação Visual virou notícia ao divulgar, na semana passada, uma vaga de emprego para auxiliar de serviços que dispensava candidatos indígenas em Amambai, município com maior população originária do Mato Grosso do Sul. O proprietário, Leandro Torres Cabanas, é um empresário bolsonarista na região que protestou contra a quarentena durante a pandemia da Covid-19 e que já forneceu material para campanha de políticos.

Empresário que discriminou indígenas em vaga de emprego é militar e bolsonarista. (Foto: Instagram)

Aberta em 2019, a Nohall tem como principais atividades o fornecimento de material para uso publicitário, como letreiros e painéis. Entre os muitos contratos públicos firmados com a Prefeitura de Amambai, a empresa foi contratada por meio de dispensa de licitação em 2021 para reforma e ampliação de uma sala para o setor de digitalização da gestão — ou seja, não precisou passar pelo processo licitatório.

Durante as eleições municipais de 2022, a Nohall ganhou mais de R$ 70 mil para fazer publicidade de 39 candidatos de Amambai e Coronel Sapucaia. Vinte deles eram filiados ao Partido Social Liberal (PSL), onze foram ao Democratas (DEM) e oito ao Partido Democrático Trabalhista (PDT).

No início das restrições pela chegada da pandemia da Covid-19 no Brasil, em março de 2020, ele defendeu publicamente que cada um tinha “que fazer sua parte” e pediu para que os seguidores abraçassem a ideia e adotassem os cuidados epidemiológicos. Passou a se posicionar contra a quarentena em 2021. “Queremos o nosso direito de trabalhar normalmente”, escreveu no Facebook. “Horário reduzido e cheio de restrições está nos levando à falência. Todos os serviços são essenciais. O sustento de minha família é essencial”. Em 26 de março de 2021, participou de um protesto que pedia o fim das medidas restritivas.

Leandro serviu sete anos ao Exército. No Instagram, publica vídeos de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2022, divulgou a imagem de uma criança com a bandeira do Brasil e a legenda: “A nossa bandeira jamais será vermelha”.

EXCLUSÃO DE INDÍGENAS FOI REPUDIADA PUBLICAMENTE

Organizações denunciaram racismo em anúncio da vaga de emprego. (Imagem: Reprodução)

“Vaga para homem maior de idade, dispenso indígenas para essa vaga. Trabalho em altura”. A autoria da mensagem disparada por Leandro em grupos de WhatsApp foi confirmada pelo empresário. Depois ele disse ao G1 ter c0metido um “ato falho e impensado ao publicar a vaga de emprego dispensando indígenas”.

A prática de “negar ou obstar emprego em empresa privada em razão da raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional” é considerada crime pelo Art. 4º da lei federal nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989. É prevista pena de multa e reclusão de um a três anos.

Na fronteira com o Paraguai, Amambai é um dos principais focos de violência contra os povos Guarani Kaiowá e Nhandeva. No ano passado, foi cenário de homicídioss: “Saiba quem é o dono da fazenda onde Guarani Kaiowá foi assassinado, no Mato Grosso do Sul“.

O prefeito do município, Edinaldo Bandeira (PSDB), repudiou o ato da empresa em suas redes sociais: “A exclusão dos indígenas de uma vaga de emprego é um retrocesso inaceitável. Em pleno século XXI, com a plena evolução da atual sociedade, não toleramos este tipo de comportamento discriminatório, que fere os princípios constitucionais de igualdade e respeito à diversidade”.

O mesmo fez a Secretaria de Estado de Turismo, Esporte, Cultura e Cidadania (Setescc), por meio da Subsecretaria de Estado de Políticas Públicas para os Povos Originários. A pasta informou que vai “acompanhar e cobrar as medidas cabíveis, tendo em vista que atos semelhantes não sejam mais cometidos no Estado do Mato Grosso do Sul”.

Após a repercussão, a Nohall prometeu reavaliar as próprias “práticas e procedimentos e evitar o surgimento ou a reincidência de atitudes discriminatórias”. “Esta empresa não compactua com racismo e pede suas sinceras desculpas a todo povo indígena pelo equívoco cometido por essa empresa. Por diversas vezes a empresa já se utilizou das redes sociais para publicar vaga de emprego, porém em nenhuma outra vez utilizou descrições do tipo para seus anúncios”.

Foto principal (Instagram): empresário sul-mato-grossense publicou vaga de emprego discriminando indígenas

Katarina Moraes é repórter do De Olho nos Ruralistas. |

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