Multado em R$ 47,5 milhões pelo Ibama, Santander fala em “agronegócio sustentável”

In Amazônia, De Olho no Ambiente, Desmatamento, Em destaque, Principal, Últimas

Banco foi punido por financiar produção de soja e milho em áreas já embargadas na Amazônia; lucro da empresa em 2015 no Brasil foi de R$ 6,6 bilhões

A notícia completa foi dada pelo Estadão, neste sábado: “Ibama multa o Santander em R$ 47,5 milhões“. Sob o silêncio, por enquanto, de outros veículos da grande imprensa. A multa foi dada por causa do financiamento dado pelo banco à produção de soja e milho em áreas já embargadas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

O site do Ibama traz a seguinte notícia: “Ibama e MPF responsabilizam empresas por financiar desmatamento na Amazônia“. “Empresas”, no plural, pois a operação feita em conjunto com o Ministério Público Federal (MPF-MT) atingiu também tradings, que também financiavam a comercialização das safras – oriundas de desmatamento – no Brasil e no exterior.

A estratégia do Ibama segue a lógica da moratória da soja, que desde 2008 prevê que empresas não adquiram ou financiem grãos plantados em áreas desmatadas irregularmente na Amazônia. O órgão informa que as ações de fiscalização já somaram R$ 170 milhões em multas, relativas à comercialização de 149 mil sacas de soja e milho.

“Foram identificadas infrações por descumprir embargos e impedir a regeneração da vegetação”, informa a notícia do Ibama. “Dentre os infratores encontram-se fazendeiros, tradings e um banco”.

Ou seja: o site do Ibama não dá nome ao banco – o Santander. Nem às tradings, nem aos fazendeiros. Ao contrário do que acontecia no Ministério do Trabalho em relação ao trabalho escravo, que divulgava a chamada “lista suja”, outro critério a ser adotado pelas empresas no caso da moratória da soja.

Apreensão de máquinas pelo Ibama, no MT. (Reprodução: Jornal da Globo)
Apreensão de máquinas pelo Ibama, no MT. (Reprodução: Jornal da Globo)

IMPUNIDADE LUCRATIVA

A estratégia de punir os elos da cadeira produtiva é defendida pelo coordenador-geral de Fiscalização Ambiental do Ibama, Jair Schmitt. Servidor público desde 2002, ele defendeu no ano passado uma tese – premiada este ano pela Capes como a melhor tese em ciências ambientais – que analisou 11.823 autuações ambientais executadas pelo Ibama entre 2008 e 2013.

Schmitt concluiu que o desmatamento ilegal compensa. A partir de um modelo de cálculo de dissuasão do fazendeiro (obtenção de vantagem econômica maior que os riscos de punição), ele observou que apenas R$ 38,54 de multas são oferecidas entre R$ 3.000 de vantagens econômicas decorrentes da pecuária, apontada como a principal atividade que motiva o desmatamento na Amazônia.

“Os indicadores registram que 45% do desmatamento na Amazônia não é detectado oportunamente para que os agentes de fiscalização possam agir e em apenas 24% dos casos há a responsabilização administrativa”, escreveu o pesquisador. “As áreas embargadas por desmatamento ilegal totalizam 18% do total desmatado. A quantidade de multas pagas corresponde a 10% e representa 0,2% do montante de multas aplicadas”.

banner-santander-ra-2015

“RESPONSABILIDADE SOCIAL”

Assim como outras empresas, o espanhol Santander – 11º maior banco do mundo – investe na imagem de que tem “responsabilidade social”. Em seu Relatório Anual 2015, assinado pelo presidente Jesús Maria Zabalza Lotina, o Santander Brasil apontou um lucro líquido de R$ 6,6 bilhões, um aumento de 13% em relação ao ano anterior.

O trecho do relatório sobre indicadores sociais e ambientais traz três gráficos. Um, sobre a participação de mulheres em cargos de liderança na empresa: 36,6%. Outro, sobre o número de empreendedores apoiados pelo microcrédito, 339 mil. Outro, sobre número de projetos inscritos (23 mil) no Santander Universidade.

“Todas as denúncias de violação aos direitos humanos, respeito à diversidade, corrupção e outras, envolvendo funcionários, clientes e fornecedores, são investigadas e tratadas por mais de uma área, com destaque para as de Recursos Humanos, Compliance e Riscos Operacionais”, diz o Santander Brasil.

Entre os exemplos mencionados de atuação na área de risco socioambiental, o banco mencionou um caso no Nordeste, outro no Sul, outro no Sudeste. Nenhuma menção ao Centro-Oeste ou à Amazônia.

Outro item, intitulado “Agronegócio Sustentável”, diz que a estratégia ligada a produtores rurais envolve linhas de financiamento “que facilitam a adoção de técnicas de plantio com menos impactos ambientais e a orientação de práticas sustentáveis para a obtenção de linhas com repasses do BNDES para o setor”.

O Santander Brasil informou ao Estadão que não pode se manifestar porque ainda não foi notificado: “O banco ressalta que, além de cumprir rigorosamente a legislação vigente, adota as melhores práticas do mercado no que diz respeito às políticas socioambientais”. (Alceu Luís Castilho)

You may also read!

Adriane Yamin diz que propriedade do pai no Pará é fruto de trabalho duro e honesto

Filha do pecuarista Amilcar Yamin, fundador das Duchas Corona, ela responde a reportagem sobre fazenda em Eldorado dos Carajás;

Read More...

Fernando Henrique Cury, que assediou Isa Penna, ganhou nome em homenagem a FHC

Produtor rural, ele pertence a uma família que domina há décadas a política em Botucatu (SP), onde o ex-presidente

Read More...

Ex-namorada de Ayrton Senna disputa terras com acampados em Eldorado dos Carajás

Adriane Yamin namorou o piloto quando adolescente; ela, a irmã e o pai Amilcar, criador das Duchas Corona, declaram

Read More...

Leave a reply:

Your email address will not be published.