Dono da mansão dos ruralistas em Brasília representa setores do agronegócio

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João Henrique Hummel, diretor da Frente Parlamentar da Agropecuária, foi quem expulsou repórteres na terça, durante almoço público da bancada em Brasília

Por Alceu Luís Castilho

“Saiam já desta casa. Ela é minha”. A frase de João Henrique Hummel Vieira marcou no dia 29 a presença da equipe do De Olho nos Ruralistas na mansão onde, há vários anos, a Frente Parlamentar da Agropecuária se reúne, todas as terças-feiras, para decidir sobre as próximas ações no Congresso “em defesa do setor produtivo”. Mas quem é Hummel, que invoca um caráter privado para uma reunião da qual já participou o próprio presidente da República, Michel Temer?

Hummell é um personagem conhecido no circuito ruralista. E muito bem relacionado. Mas não só isso. Em entrevistas à imprensa ou missões oficiais, ele já falou como representante de mais de um setor do agronegócio. Em 2001, na Câmara, discursava como secretário-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Sementes. Com o tempo, foi expandida sua representatividade. Hoje ele é diretor executivo – já se apresentou assim em reunião no Supremo Tribunal Federal (STF), com a ministra Rosa Weber – da própria FPA.

Não que ele tenha atuado somente no setor privado. O engenheiro agrônomo – formado pela Universidade de Brasília (UnB) – já foi funcionário do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). E membro do Conselho de Administração da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Chegou a ser assessor especial do ministro Roberto Rodrigues, durante o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Foi destituído, pelo ministro Reinhold Stephanes, no dia 7 de janeiro de 2008. E se tornou inelegível. Em 2010, já representava a Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja) no próprio Mapa. Notem que, no vídeo abaixo, ele segura uma pasta da Aprosoja.

O diretor da FPA se apresenta na rede LinkedIn como diretor executivo do Instituto Pensar Agro (IPA), um think tank do agronegócio. Entre suas funções estão a coordenação das atividades técnicas, administrativas e de estratégicas políticas; e os “acompanhamentos das atividades do Congresso Nacional e do Poder Executivo Federal”, em suas relações com as cadeias produtivas do agronegócio”.

Ele informa na rede social que está no IPA desde 2008 – ano da saída do Ministério da Agricultura. O engenheiro aparece ainda como estrategista da Anima Legis Relações Governamentais, especializada no “relacionamento entre os diversos agentes econômicos e o governo”.

Em junho, Hummel foi recebido por Michel Temer no próprio Palácio do Planalto, ao lado de nomes como Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), do ex-ministro Roberto Rodrigues e do ex-governador paulista Luiz Antônio Fleury Filho. No dia 27 de abril, também foi recebido por Temer, quando este ainda era vice-presidente.

Hummel mostra desenvoltura similar no Facebook, onde se apresenta como Jabu. Entre seus amigos na rede social estão o ministro da Agricultura, Blairo Maggi (PP-MT); o secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, Luis Eduardo Pacifici Rangel; e Iara Viveiros Lima, que foi chefe de gabinete da Secretaria de Política Agrícola na gestão da ministra Kátia Abreu (PMDB-TO).

Ele é amigo, ainda, do vice-governador de Roraima, o arrozeiro e ex-deputado Paulo Cesar Quartiero; dos deputados Luis Carlos Heinze (PP-RS); César Halum (PRB-TO); Nelson Padovani (PSDB-PR); dos ex-deputados Silas Brasileiro (PMDB-MG), presidente do Conselho Nacional do Café, e Moreira Mendes (PSD-RO). Do atual presidente dos Correios, Guilherme Campos; e do presidente anterior dos Correios, o ex-deputado ruralista Giovanni Queiroz.

A lista de amigos se amplia com o secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico de Mato Grosso, Ricardo Tomczvk. Com o presidente da Aprosoja-MT, Endrigo Dalcin. Com o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), Maurício Saito. Com o diretor-executivo da União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica), Eduardo Leão de Sousa. Além de inúmeros fiscais e outros funcionários do Ministério da Agricultura.

PÚBLICO OU PRIVADO?

De Olho nos Ruralistas perguntou à Frente Parlamentar da Agropecuária de quem é a casa que Hummel diz ser sua. Se a FPA paga aluguel a ele. E se as reuniões são públicas ou privadas. As primeiras respostas ainda não chegaram. A última, sim. “As reuniões são públicas e abertas à imprensa”, confirmou na sexta-feira o chefe da assessoria de imprensa, Tito Matos. “A gente dá acesso à imprensa. Divulga a pauta. Não tem nada escondido, nada em segredo. É onde se debatem os interesses do setor. No site não tem nada que não seja do conhecimento público”.

Segundo Matos, na reunião se discute tudo de maneira muito transparente e democrática. Com deputados de diferentes ideologias: “Simbolicamente, o deputado passa a pertencer a um partido. É o partido do agronegócio, do setor produtivo rural, de alimentos. Os estatutários quando entram na Frente assumem o compromisso de defender os interesses do setor produtivo rural. Isso é feito de forma independente e democrática”.

As reuniões-almoço da FPA já contaram com a presença de ministros do governo Temer, como Geddel Vieira Lima (então na Secretaria de Governo), em junho, discutindo temas como a revisão da demarcação de terras indígenas e a compra de terras por estrangeiros. Ou Moreira Franco (então na Secretaria-Executiva do Programa de Parcerias de Investimentos), em agosto, para tratar de licenciamento ambiental.

Blairo Maggi esteve em almoço da Frente, em maio. Saiu de lá dizendo que iria desburocratizar o Ministério da Agricultura. Sarney Filho, do Meio Ambiente, participou de reunião em junho, mas não conseguiu conquistar os parlamentares. A frente do agronegócio – que também já rejeitou a indicação de Reinold Stephanes para o Mapa – insiste em derrubá-lo.

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