FHC, o Fazendeiro – Fundação FHC promove agronegócio e enviou consultoras para Museu do Zebu

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Manutenção do acervo do ex-presidente e eventos foram realizados com isenções fiscais; em 2016, deputado petista pediu convocação de Fernando Henrique na CPI da Lei Rouanet

Por Alceu Luís Castilho

Em 2014, duas consultoras da Fundação FHC foram a Uberaba (MG) conhecer o Museu do Zebu. Elas foram recebidas pela presidente do museu e pelo então vice-presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), Jovelino Carvalho Mineiro Filho – também dono de terras no município mineiro. É na sede da ABCZ, em Uberaba, que fica o escritório da Associação dos Criadores de Nelore, que tem Bento Mineiro, filho de Jovelino, como um dos sócios.

Silvana Camargo representava a própria Fundação FHC. A consultora Ana Maria de Almeida Camargo, o Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), onde já apresentou pesquisa sobre o acervo do ex-presidente. Em 2007, as duas lançaram o seguinte livro, em português e inglês: “Tempo e circunstância: a abordagem contextual dos arquivos pessoais: procedimentos metodológicos adotados na organização dos documentos de Fernando Henrique Cardoso”.

Em outubro, Venezuela em pauta. (Foto: Vinicius Doti/Fundação FHC)

Em 2015, o Centro de Referência da Pecuária Brasileira–Zebu (CRPB) – um projeto da ABCZ renomeado para Zebu.org – recebeu pesquisadores da Fundação FHC, também em Uberaba, para a apresentação da instituição, que acabara de ser inaugurada. Semanas depois o historiador da organização, Thiago Riccioppo, visitou a fundação. Foi recebido por Ana Maria, Silvana e pela curadora do acervo, Danielle Ardaillon.

PETISTA QUIS CHAMAR FHC PARA CPI

O acervo da Fundação FHC é mantido com verbas de incentivo fiscal, por meio da Lei Rouanet. Em outubro de 2016, o deputado Jorge Solla (PT-BA) requereu à CPI da Lei Rouanet (cujo relator foi o deputado Domingos Sávio, do PSDB-MG) a convocação de FHC, que ele apontou como “um dos cem maiores utilizadores das verbas do sistema”.

Segundo o deputado, a fundação – que ele descreve como Instituto FHC, o nome que durou até 2010 – tinha captado R$ 14,5 milhões. O projeto que estava em curso naquele ano recebera, até 2017, R$ 6,2 milhões. “O objeto do financiamento é a manutenção de estrutura de preservação do acervo do ex-presidente e de sua família”, escreveu Solla no requerimento.

O superintendente da Fundação FHC, Sérgio Fausto, disse que as duas consultoras foram a Uberaba porque o Museu do Zebu possui um bom acervo histórico. “Não é nenhuma correia de transmissão do agronegócio”, afirma. “As duas são historiadoras, o trabalho da equipe é seríssimo. Nada mais distante delas do que os interesses do agro brasileiro”.

Segundo o cientista político, reforma agrária e meio ambiente foram dois temas escolhidos pela equipe do acervo para se fazer uma linha do tempo, a partir de três dimensões: a social, as ações de governo e as mudanças legislativas. Essa linha do tempo será ilustrada com documentos da própria fundação. “Tem bastante coisa de reforma agrária”, informa.

DA RURAL À FUNDAÇÃO, PROMOÇÃO DO AGRONEGÓCIO

Autointitulada um dos principais think tanks do mundo, a Fundação FHC tem uma relação próxima com o agronegócio, como vimos na reportagem sobre a Sociedade Rural Brasileira, que fica no mesmo prédio: “FHC, o Fazendeiro – Fundação FHC fica no mesmo prédio – e não por acaso – que a Sociedade Rural Brasileira“. Essa conexão, porém, não se restringe à Rural. Inúmeros eventos realizados no edifício da Rua Formosa trataram do setor.

Com general Villas Bôas em 2017, em debate sobre Forças Armadas. (Reprodução: YouTube)

No dia 24 de abril, por exemplo, a fundação realizou um evento sobre o seguinte tema: Pesquisa e inovação no agronegócio: os desafios do futuro batem à porta”. Sob o patrocínio de empresas como Bunge, Cosan, Raízen, Natura e Votorantim – para citar empresas mais diretamente ligadas ao setor. O time de empresas costuma se repetir ao longo dos eventos, como se vê nas fotos de divulgação. (Inclusive aquelas com FHC.)

O relatório de 2016 da fundação mostra que Ambev, Bunge, Cosan, Itaú, Natura patrocinaram 22 dos 35 eventos realizados no ano. Um deles, sobre mudanças climáticas. O seminário sobre os 20 anos da lei da arbitragem no Brasil – onde esteve o advogado José Oliveira da Costa, diretor da fundação – teve como um dos palestrantes o diretor jurídico da Bunge.

Em dezembro de 2009, Fernando Henrique Cardoso reuniu 30 empresários para traçar a estratégia do iFHC para o ano seguinte. Entre eles estavam Jovelino Mineiro, Rubens Ometto (Cosan), Paulo Skaf – empresários mantenedores do instituto – e os banqueiros Lázaro Brandão, José Safra e Pedro Moreira Salles.

Em 2013, ao comemorar seus 94 anos, a Sociedade Rural Brasileira homenageou Brandão. Um dos presentes era FHC. O ex-presidente sentou-se ao lado da senadora Kátia Abreu (PDT-TO), à época no PSD, prestes a se filiar ao PMDB. Kátia foi ministra da Agricultura durante o governo Dilma Rousseff, a quem defendeu durante o processo de impeachment.

Em fevereiro do ano passado, em evento da Fundação FHC transmitido pelo Facebook, sobre o governo protecionista nos Estados Unidos, um dos debatedores era Gustavo Diniz Junqueira, então presidente da Rural. Ele é membro de alguns conselhos de administração, entre eles o da Cosan Logística.

EM 1995, FHC DEFENDEU ‘PECUÁRIA AGRESSIVA’

FHC na Expozebu, em 2011. (Foto: ABCZ)

No início de seu primeiro governo, em 1995, Fernando Henrique Cardoso esteve em Uberaba para inaugurar a Expozebu – o mesmo evento inaugurado por Michel Temer no dia 28 de abril. FHC voltou à exposição para outras inaugurações, em 1997 e 2001. (Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Collor, Ernesto Geisel e Juscelino Kubitschek também inauguraram exposições durante seus mandatos.)

Em 1995, ele estava acompanhado do presidente paraguaio, o pecuarista (com terras no Brasil) Juan Carlos Wasmosy. “O caminho está traçado”, disse FHC ao inaugurar a 65ª edição da Expozebu. “Eu vim aqui a Uberaba para dizer a Minas que é daqui que nós vamos, de fato, mais uma vez, retomar a bandeira de uma pecuária agressiva, positiva, em favor do Brasil”.

Na época ele já tinha se tornado sócio de uma fazenda em Minas, a Córrego da Ponte. Inicialmente com seu ministro das Comunicações, Sérgio Motta, depois com Jovelino Mineiro: “FHC, o Fazendeiro – Em Buritis (MG), Fernando Henrique criou gado e despejou MST com Exército“.

LEIA A SÉRIE COMPLETA:
“FHC, o Fazendeiro – tudo sobre as terras da família, os amigos pecuaristas e a Odebrecht”.

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