Ameaças e ataques a indígenas e sem-terra marcam fim de semana da vitória de Bolsonaro

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Mato Grosso do Sul teve ataque a acampamento do MST e 15 feridos em retomada Guarani Kaiowá; em Pernambuco, escola e posto de saúde do povo Pankararu foram destruídos no domingo

Por Leonardo Fuhrmann

As falas do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) contra povos indígenas, quilombolas e sem-terra provocaram uma onda de violência nas vésperas de sua vitória e logo após o anúncio do resultado das urnas. Os casos envolvem ameaças, tentativas de intimidação, depredação de unidades de saúde e educação e ataques com armas letais e não letais.

O principal foco de violência foi o Mato Grosso do Sul, mas também foram registrados casos de violência em Pernambuco. Os episódios têm outro aspecto em comum: a maioria deles aconteceu em regiões onde os conflitos não foram solucionados nos últimos anos. Pelas declarações de Bolsonaro antes e durante o período eleitoral, a tensão nessas regiões deve ser crescente.

Ele já afirmou que não pretende demarcar um centímetro sequer de terra para indígenas e quilombolas. Também disse que os sem-terra devem ser enquadrados como terroristas e chamou os integrantes do movimento de “marginais”. “Invadiu? É chumbo!”, afirmou em maio deste ano, durante uma palestra na Associação Comercial do Rio de Janeiro.

CRIANÇA DE 9 ANOS FICOU FERIDA NO MS

Em Dourados (MS), 15 indígenas ficaram feridos em um ataque a um acampamento ao lado da aldeia Bororo, na madrugada de domingo. Entre eles está uma criança de 9 anos. Os agressores usaram balas de borracha e bolinhas de gude. O ataque só foi interrompido com a chegada da Política Militar. Uma indígena fez um relato ao Correio do Estado:

– Eles chegaram em três caminhonetes e um trator. Era muito homem. Derrubaram tudinho os barracos, levaram panelas, essas coisas. O que tinha de alimento eles cortaram e derramaram tudo no chão, o povo estava fazendo chicha e eles derramaram tudo.

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) tem outros dois relatos de violência contra indígenas no estado. Ambos na noite de domingo, logo depois do anúncio da vitória de Bolsonaro e do pronunciamento do presidente eleito. Em Caarapó, cerca de 40 caminhonetes fizeram uma carreata à retomada indígena. Em junho de 2016, um membro da etnia Guarani Kaiowá foi morto e outros seis ficaram feridos depois de um ataque de cerca de 200 homens.

Em Miranda, os fazendeiros também soltaram fogos e fizeram disparos de armas de fogo em direção aos indígenas. Ninguém ficou ferido. Os indígenas do município já foram atacados a tiros outras vezes. Em uma delas, o líder Paulino da Silva Terena foi baleado, em 2014. Quando foi atacado, ele já estava incluído no Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Dois ônibus de transporte escolar indígena foram incendiados na localidade, em 2011 e 2013.

Povo Pankararu teve escola destruída em Pernambuco. (Foto: Facebook)

Em Jatobá, no sertão de Pernambuco, uma escola e um ambulatório do Programa de Saúde da Família que atendem a comunidade Bem Querer de Baixo, do povo Pankaruru, foram completamente destruídos no domingo por um incêndio criminoso. Os indígenas temiam por um aumento da violência desde o mês passado, quando posseiros foram retirados pela polícia de suas terras por determinação da Justiça Federal.

“A barbárie começou”, escreveram os indígenas na página Povo Pankararu no Facebook. “Os maiores prejudicados são as crianças sem escola nas vésperas do fim do ano letivo, a comunidade sem o PSF onde eram realizados cerca de 500 atendimentos mensais e a nossa alma que é constantemente ferida, machucada. Mas jamais silenciada”.

No último dia 13, o indígena Davi Mulato Gavião foi morto a tiros por dois homens. Ele foi atacado durante a madrugada, quando dormia no centro de Amarante, no Maranhão. Os indígenas da região atribuem o crime ao preconceito que sofrem na região.

ACAMPAMENTO DO MST FOI INCENDIADO

Ainda no Mato Grosso do Sul, em Dois Irmãos do Buriti (município que também abriga comunidades Terena), a violência atingiu camponeses do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Na noite de sábado, homens em uma caminhonete fizeram o ataque o acampamento Sebastião Bilhar, aos gritos do nome de Bolsonaro. Um dos barracos foi incendiado pelos agressores. Com 240 famílias, o acampamento foi criado em julho do ano passado.

Em entrevista à rádio Brasil de Fato, o líder do MST João Pedro Stédile defendeu a necessidade de retomada do trabalho de base dos movimentos sociais e afirmou que a esquerda está novamente aglutinada para enfrentar os desafios do governo Bolsonaro:

– É um governo que vai usar todo o tempo a repressão, as ameaças, o amedrontamento. Vai liberar as forças reacionárias que estão presentes na sociedade. Por outro lado, ele vai tentar dar liberdade total ao capital em um programa neoliberal. Porém, essa fórmula é inviável, não dá coesão social e não resolve os problemas fundamentais da população.

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