Organizador de congresso golpista nos EUA é comissionado de Jorginho Mello

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Leandro José Castro de Freitas, lotado no gabinete do senador, é dono da Lux Brasil, associação que consta como apoiadora cultural do evento e que abrigava até nazista em suas fileiras; blogueiro foragido da Justiça e procuradora da Lava Jato estão entre convidados

Por Mariana Franco Ramos

Thaméa Danelon e Allan dos Santos no cartaz do CCB. (Imagem: Reprodução)

“A direita está unida por um propósito: reeleger Jair Bolsonaro”, diz o material de propaganda do Congresso Conservador Brasileiro (CCB), previsto para ocorrer no sábado (25), em Massachusetts, nos Estados Unidos. O evento reunirá advogados, empresários e jornalistas notabilizados por propagar fake news, desacreditar a Ciência e defender atos antidemocráticos contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Um detalhe em meio aos nomes no cartaz de divulgação chama a atenção: “Apoiador cultural – Lux Brasil”. Trata-se da mesma associação que, em 2020, chegou a produzir o vídeo de um cavaleiro templário convocando, em um latim duvidoso, “patriotas” a participarem de atos pró-Bolsonaro. E que, conforme a Revista Fórum, tinha entre seus quadros um flagrante entusiasta do terceiro Reich alemão: Wander Pugliesi.

Em 2014, câmeras flagraram uma suástica na piscina da casa do professor de História, em Pomerode, no interior de Santa Catarina. Ele mesmo afirmou, ao jornal gaúcho Zero Hora, que os negros eram coitados, pois “ficaram desempregados no dia 13 de maio”, referindo-se à data de assinatura da Lei Áurea, em 1888. Como se não bastassem as declarações racistas, Pugliesi confirmou que batizou seu filho de Adolf, em homenagem a Hitler.

O presidente e principal rosto da Lux é o empresário bolsonarista Emilio Dalçóquio Neto, amigo do dono das Lojas Havan, Luciano Hang, e herdeiro de uma das maiores transportadoras do Brasil, com mais de 600 caminhões. Ele se orgulha de ter participado de uma “missão” na Amazônia junto ao Exército e a outros jovens empresários em São Gabriel da Cachoeira (AM), na região conhecida como Cabeça do Cachorro. Sua atuação, contudo, está longe de beneficiar os povos originários que habitam o bioma.

AMIGO DE LUCIANO HANG FINANCIOU MOVIMENTO SEPARATISTA

Instituto se notabilizou por propagar fake news e defender negacionismo. (Imagem: Reprodução)

Afastado dos negócios há alguns anos, foi um dos principais financiadores do movimento separatista “O Sul é Meu País”, já liderou greves de caminhoneiros e hoje se dedica a propagar as ideias “anticomunistas” do instituto. Entre elas estão o voto impresso, o fim das cotas raciais e a extinção da Comissão da Verdade, com a suspensão do que chama de “Bolsa Ditadura”. Também não se furta de defender publicamente ditadores do Brasil e do Chile, caso de Augusto Pinochet.

A Lux, no entanto, pertence a outra pessoa: Leandro José Castro de Freitas, de Itajaí (SC). A informação está na base de dados da Receita Federal. Embora menos midiático que o presidente, ele compartilha dos mesmos valores: é armamentista e não demonstra muito apreço às instituições democráticas. “Na bíblia também fala como combater esse mal?”, questionou, no Twitter, em referência ao STF.

Segundo o Portal da Transparência do Senado, Freitas está lotado no gabinete de Jorginho Mello (PL-SC), membro da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), igualmente amigo de Hang e pré-candidato ao governo de Santa Catarina pelo partido de Bolsonaro. O salário do suposto funcionário, de auxiliar parlamentar júnior, é de R$ 5.735,93 mensais.

Não à toa, entre frases do autointitulado filósofo Olavo de Carvalho, morto em janeiro de 2022, ataques à imprensa profissional, críticas fundamentalistas ao educador Paulo Freire e reiterados elogios a Bolsonaro, as páginas da associação na internet costumam divulgar o trabalho de Mello. O ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, que disse odiar o termo “povos indígenas”, e os filhos do presidente são alguns dos apoiadores da Lux.

FORAGIDO DA JUSTIÇA, ALLAN DOS SANTOS FOI CONVIDADO A PALESTRAR

Weintraube e Dalçóquio promovem Lux Brasil. (Imagem: Reprodução)

A liata de convidados do CCB engloba o youtuber Gustavo Gayer, a procuradora Thaméa Danelon, ex-coordenadora da Lava Jato em São Paulo e amiga pessoal de Deltan Dallagnol, a colunista do jornal Gazeta do Povo e da rádio Jovem Pan Cristina Graeml e o blogueiro Allan dos Santos. Todos são figurinhas carimbadas nos encontros da extrema-direita.

Graeml se tornou conhecida pelos posts desencorajando a vacinação, com dados de mortes de crianças falsamente atribuídos aos imunizantes. Ela foi desmentida pelo Globo, que citou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas escreve, em sua bio, que acredita no “poder transformador de uma sociedade bem informada”.

Santos é alvo de investigações no STF e foragido da Justiça, com prisão decretada. Ele seria, assim como os demais, palestrante, entretanto, teve a presença cancelada alegando “problemas familiares”.

Confirmaram participação no congresso, ainda, Geral Barral, presidente da Ordem dos Advogados Conservadores do Brasil (OACB), e Ricardo Martins, um pastor fundamentalista que ataca a comunidade LGBTQIA+ e reproduz desinformação sobre a pandemia de Covid-19. A sigla LGBTQIA+ se refere a pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queers, intersexuais, assexuadas e de outras identidades e orientações.

Facebook retirou uma das várias notícias falsas da Lux Brasil. (Foto: Reprodução)

Os ingressos para o evento variam entre 40 e 120 dólares (R$ 210 a R$ 620, aproximadamente). “Se você é um patriota e conservador ou deseja conhecer mais dos ideais de direita neste ano tão importante e decisivo para a história da política brasileira, venha estar conosco para um dia de imersão de valores e pautas conservadoras, com grandes nomes da direita conservadora do Brasil”, diz trecho do convite.

Embora esse seja o primeiro CCB de Massachusetts, encontros parecidos aconteceram antes em Orlando, na Flórida, inclusive com a participação de Bolsonaro. O presidente cumpriu agenda oficial do governo, dentro da programação da Cúpula das Américas. Aproveitou para estender a viagem e passear de moto com apoiadores, sem capacete, como de costume.

Investigado em dois inquéritos no STF, um que apura ameaças a ministros da Corte e disseminação de conteúdo falso na internet e outro sobre o financiamento de atos antidemocráticos, Allan dos Santos esteve no local. Segundo o portal G1, ele fez uma transmissão ao vivo pelas redes sociais com apoiadores do presidente, antes da chegada de Bolsonaro. Por pouco mais de seis minutos, tirou fotos e gravou vídeos com bolsonaristas, reunidos desde o começo da manhã.

DELEGADO DIZ QUE SENADOR INTEGRA “BANCADA DO CRIME” NA AMAZÔNIA

Saraiva ameaça contar mais “podres” de Zambelli e Mello. (Imagem: Reprodução)

De acordo com o delegado Alexandre Saraiva, afastado da Polícia Federal (PF) no ano passado por investigar Ricardo Salles, então ministro do Meio Ambiente, Jorginho Mello integra uma “bancada do crime”, financiada por madeireiros, que apoiaria atividades ilegais na Amazônia. Os outros membros, segundo Saraiva, seriam Telmário Mota (Pros-RR), Zequinha Marinho (PL-PA), Mecias de Jesus (Republicanos-RR) e a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP).

“Eu tenho aqui uma coleção de ofícios de senadores dos diversos estados da Amazônia que mandaram para o meu chefe dizendo que eu estava ultrapassando os limites da lei”, afirmou, em entrevista à Globonews. “Teve senador junto com madeireiro me ameaçando”. Mello nega qualquer irregularidade e, assim como Zambelli, ameaça processar Saraiva pelas declarações.

O delegado foi a público após a notícia de que o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Philips foram assassinados no Vale do Javari (AM), região que abriga a segunda maior Terra Indígena do país e a maior do planeta em número de povos isolados. Segundo ele, o bioma como um todo foi tomado por exploradores ilegais, cujas ações contariam com a anuência do governo Bolsonaro.

ATÉ OUTUBRO, OBSERVATÓRIO VAI ESMIUÇAR CANDIDATURAS DO AGRONEGÓCIO

De Olho nos Ruralistas iniciou neste mês de junho uma cobertura especial e inédita, com o objetivo de esmiuçar as políticas agrárias e ambientais dos últimos anos, as candidaturas do agronegócio e o funcionamento da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).

As primeiras reportagens publicadas foram da nova série sobre as terras no Mato Grosso da família do ex-coordenador da Lava Jato Deltan Dallagnol, que deve concorrer a uma vaga no Senado. Leia o abre: “Incra diz que pagou R$ 147 milhões a mais ao desapropriar gleba dos Dallagnol“. Fizemos também, em vídeo, um resumo das acusações que pairam sobre o clã.

Até as eleições de outubro, lançaremos dossiês em português e inglês, visando o público internacional, e multiplicaremos as matérias e os vídeos, com uma equipe ampliada. Confira um spoiler de tudo o que vem por aí: “Jornalistas preparam cobertura eleitoral inédita sobre questão agrária”.

O Brasil decidirá nos próximos meses se quer manter um presidente fascista, fiador de genocídios, ou apoiar candidaturas do campo democrático. Em paralelo a isso, o país tem as eleições estaduais, com menor visibilidade, e a renovação do Parlamento. Outra Câmara é possível, outro Senado é necessário. Precisamos de uma bancada socioambiental — uma bancada que defenda a vida.

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|| Mariana Franco Ramos é jornalista. ||

Foto principal (Divulgação): Jorginho Mello, que emprega dono da Lux Brasil em seu gabinete no Senado, é pré-candidato ao governo de Santa Catarina

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