Face “bananeira” de Bolsonaro abre série de dossiês sobre governo

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Outdoor paid by banana growers shows support to Bolsonaro's campaign in 2018. (Facebook)

Presidente e seu irmão Renato Bolsonaro agiram para beneficiar bananicultores do Vale do Ribeira (SP), berço do clã; relatório “O Presidente das Bananas” inaugura cobertura especial do De Olho nos Ruralistas sobre questão agrária e políticas destruidoras da atual gestão

Por Alceu Luís Castilho e Bruno Stankevicius Bassi

Em dezembro de 2018, uma comitiva de bananicultores do Vale do Ribeira, no estado de São Paulo, foi recebida em Brasília pelo candidato Jair Bolsonaro e pela deputada federal Tereza Cristina (PP-MS), que viria a ser ministra da Agricultura. Faltavam poucas semanas para a posse do político como presidente da República.

Relatório mostra intervenção direta de Bolsonaro para favorecer bananicultores.

Em junho de 2022, ele foi ao município de Pariquera-Açu (SP), no Ribeira, para participar da Feibanana, a maior feira de bananicultura do país. Desta vez, ao lado de Tarcísio Gomes de Freitas, seu candidato ao governo paulista, e do irmão Renato Bolsonaro, famoso por intermediar verbas federais para a região.

O que aconteceu nesse meio-tempo? Qual a importância do setor bananeiro para Bolsonaro, que cresceu na região, e sua família? Qual a relação dele e do irmão Renato com a Associação dos Bananicultores do Vale do Ribeira (Abavar), organizadora da Feibanana?

Esse é o tema do dossiê “O Presidente das Bananas“, primeiro de uma série de relatórios do De Olho nos Ruralistas que mostrarão a implosão da política agrária sob o governo Bolsonaro: do favorecimento de determinados grupos políticos à explosão de violência e crimes ambientais no campo.

A pesquisa traz um histórico das articulações políticas de Jair Bolsonaro para beneficiar aliados do Vale do Ribeira, que vão da proibição da importação de bananas do Equador — Bolsonaro é nacionalista quando convém — à ampliação da permissão da pulverização aérea de plantações de banana para até 250 metros de distância de bairros, cidades, vilas e povoados.

A série Dossiê Bolsonaro traz, em suas capas, desenhos do cartunista Aroeira. O estudo teve também a coordenação da engenheira agrônoma e professora universitária Luciana Buainain Jacob.

Acesse o relatório na íntegra aqui. Veja também a versão em inglês.

QUATRO ANOS DEPOIS, OBSERVATÓRIO RETORNA AO VALE DO RIBEIRA

A publicação do dossiê consolida uma cobertura iniciada na corrida eleitoral de 2018, quando De Olho nos Ruralistas enviou uma equipe de jornalistas e profissionais de vídeo para verificar denúncias de crimes ambientais envolvendo familiares e aliados políticos de Jair Bolsonaro, então candidato à Presidência da República.

Pulverização aérea aprovada por Bolsonaro impacta comunidades rurais no Vale do Ribeira. (Foto: Divulgação/NIH)

Na época, pouco se falava sobre os anos de juventude do capitão no interior de São Paulo, apesar do político falar frequentemente de seu passado no Vale do Ribeira durante a campanha. Em um desses atos, ainda em 2017, ele proferiu uma ofensa racista aos quilombolas da região, medindo-os em arrobas, como se fossem gado.

O observatório percorreu vários quilombos no município de Eldorado, onde o político disse ter estado, e descobriu que, como se tornaria praxe durante seu governo, Bolsonaro mentia. Ele não tinha visitado nenhuma comunidade quilombola na região. O mesmo não podia ser dito de seu cunhado: ainda em 2018, De Olho nos Ruralistas contou, com exclusividade, como o empresário Theodoro da Silva Konesuk — casado com Vânia, irmã caçula de Jair Bolsonaro — foi condenado a devolver uma área invadida pertencente aos remanescentes do quilombo do Bairro Galvão, em Iporanga (SP).

Quatro anos depois, nossa equipe voltou à região e identificou que a situação dos quilombolas do Vale do Ribeira só deteriorou. Moradores relatam que, desde a publicação da Instrução Normativa nº 13, em 08 de abril de 2020, que flexibilizou a pulverização aérea sobre bananais, suas casas, lavouras e até eles próprios são atingidos pela chuva de venenos. Ainda em vigor no Brasil – apesar de proibida em diversos países –, a pulverização aérea de agrotóxicos é responsável pela contaminação do solo e do ar, além de atingir áreas vizinhas à sua aplicação em decorrência da deriva, dificultando o processo de certificação de produtos orgânicos.

BOLSONARO INTERFERIU DIRETAMENTE EM BENEFÍCIO DE BANANICULTORES

O dossiê “Presidente das Bananas” também mostra que Bolsonaro cumpriu fielmente as promessas de campanha feitas aos bananicultores do Ribeira. Em novembro de 2018, após visitar o presidente recém-eleito no Rio de Janeiro, o produtor de bananas João Evangelista, amigo de infância do ex-militar, afirmou que ele havia se comprometido com a proibição das importações. “Ele falou que vai tentar regularizar esse negócio com o Equador que está pondo banana aqui no Brasil, que parece que não veio de boa qualidade”, disse à imprensa.

Produção de bananas no Vale do Ribeira é tema que consome a atenção do presidente desde 2014. (Imagem: Reprodução/De Olho nos Ruralistas)

No ano seguinte, em transmissão ao vivo realizada no dia 07 de março de 2019, o presidente afirmou que pretendia acabar com o “fantasma da importação de banana” do Equador. De fato, na semana seguinte foi publicada a Instrução Normativa nº 4, de 18 de março de 2019, que suspendeu o comércio da fruta oriunda do país sul-americano.

A medida foi comemorada pelo setor. Em abril de 2020, o presidente da Abavar, Ézio Borges, publicou um vídeo agradecendo “o apoio do presidente Jair Messias Bolsonaro”. “A Abavar, reconhecedora do projeto político agrícola para o país, e principalmente para a bananicultura, durante a última campanha presidencial sempre se manteve fiel em seu apoio político incondicional ao atual presidente, Jair Messias Bolsonaro”, afirmou o produtor de bananas.

Da mesma forma, a flexibilização da pulverização aérea sobre os bananais era uma demanda antiga do setor, cuja intervenção direta de Bolsonaro foi explicitada pelo menos em duas ocasiões. Na primeira, em reunião ministerial de 22 de abril de 2020, dias depois da promulgação da IN 13/2020, o presidente elogia a então ministra da Agricultura, a ruralista Tereza Cristina, pelo empenho em revogar medidas anteriores que reduziu a faixa de limite para pulverização aérea de 500 metros para 250 metros.

Poucos meses depois, em vídeo transmitido ao vivo de Eldorado (SP) no dia 03 de setembro de 2020, o presidente admitiu a interferência junto à ministra para flexibilizar a pulverização aérea de agrotóxicos nos bananais:

— Poxa, entre um avião e uma pessoa com uma maquininha nas costas, mexendo com a bomba ali, qual a possibilidade de alguém se contaminar mais? O piloto ou com a maquininha nas costas bombando diretamente nas bananas? Obviamente que a segunda hipótese. A Tereza Cristina mudou isso.

FOME, AMBIENTE E CONFLITOS AGRÁRIOS ESTARÃO ENTRE TEMAS DA SÉRIE

Que Brasil emergirá após outubro? Como é esse país que volta ao Mapa da Fome? Qual o papel do agronegócio no governo atual e qual o papel do Congresso — e de seus principais líderes — no que acabou ficando conhecido como “boiada”? A “boiada” defendida pelo então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em uma reunião ministerial, a destruição de leis socioambientais, tem uma face parlamentar e tem líderes ruralistas entre seus artífices. Antes deles, seus financiadores.

As políticas públicas que serão feitas a partir de 2023 têm alguma chance de não serem implosivas, caso Bolsonaro não seja reeleito. E este observatório cumprirá seu papel de ajudar a mostrar em que pé estão determinadas políticas em nosso campo temático: a vida dos povos do campo, a sobrevivência dos biomas, a alimentação saudável, determinadas engrenagens que compõem a identidade deste nosso país continental.

Para isso publicaremos dossiês em português e inglês, visando o público internacional, a partir da integração da equipe editorial com um time de quatro pesquisadores, sob a coordenação de Luciana Jacob, doutora em Ecologia Aplicada pela Universidade de São Paulo.

Um dos próximos temas da série Dossiê Bolsonaro será a atual política do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Outro tema, o fogo.

Foto principal (Reprodução/Facebook): presidente interferiu diretamente em políticas para beneficiar bananicultores do Vale do Ribeira

| Alceu Luís Castilho é diretor de redação do De Olho nos Ruralistas. |

|| Bruno Stankevicius Bassi é coordenador de projetos do observatório. ||

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