Nova bancada socioambiental no Congresso tem representatividade internacional

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Indígenas, camponeses, ambientalistas e candidatos alinhados com a agroecologia foram eleitos no dia 02 de outubro e devem ampliar a bancada da resistência na Câmara e no Senado; Assembleias mantiveram deputados e ganharam reforços

Por Luma Prado e Nanci Pittelkow

Pela primeira vez na história da República o Congresso vai contar com duas deputadas federais indígenas, diretamente ligadas ao movimento organizado dos povos originários. Sônia Guajajara (PSOL-SP) e Célia Xakriabá (PSOL-MG) tiveram suas candidaturas impulsionadas pela campanha “Aldear a Política”, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Mais dois candidatos autodeclarados indígenas foram eleitos no campo democrático: Juliana Cardoso (PT-SP) e Paulo Guedes (PT-MG).

Célia Xakriabá e Sonia Guajajara foram eleitas para a Câmara. (Foto: Douglas Freitas/Divulgação)

A nova bancada socioambiental inclui camponeses, entre eles três integrantes reeleitos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, ambientalistas e 64 deputados federais e 86 estaduais que assinaram carta-compromisso da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Uma senadora e dois governadores eleitos também assinaram a carta.

Entre os militantes do MST se reelegeram Valmir Assunção, deputado federal pelo PT da Bahia, e Marcon, pelo PT do Rio Grande do Sul. O petista João Daniel foi reeleito no Sergipe, mas sua vaga foi contestada pelo Delegado André David (Republicanos) e o candidato aguarda a decisão final do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A bancada dos camponeses tem como destaque ainda os paraenses Beto Faro, eleito para o Senado, Airton Faleiro e a ribeirinha Dilvanda Faro para a Câmara, todos pelo PT. No Rio Grande do Sul foram reeleitos os agricultores Bohn Gass, pelo PT, e Heitor Schuch, pelo PSB. O pernambucano Carlos Veras manteve a vaga pelo PT.

Marina Silva tem conexões com parlamentares “verdes” europeus. (Foto: Divulgação)

Entre os ambientalistas, a ex-ministra Marina Silva se elegeu em São Paulo pela Rede Sustentabilidade. Nilto Tatto se reelegeu pelo PT, também em São Paulo; Padre João, pelo PT mineiro. Com recursos modestos de fundo eleitoral e poucas doações, representantes do movimento quilombola não conseguiram chegar ao Congresso e às Assembleias. 

Com Marina Silva e as duas deputadas indígenas, a Câmara terá uma representatividade internacional forte nos próximos anos, diante das articulações da ex-ministra do Meio Ambiente e dos esforços de Sonia e Celia no exterior, a partir da Apib, especialmente Europa e Estados Unidos.

Seis dias após o primeiro turno, por exemplo, Marina esteve reunida na sede da Rede Sustentabilidade, em São Paulo, com o deputado ambientalista italiano Angelo Bonelli, do Europa Verde. Ele participou naquele dia de caminhada em Guarulhos com o ex-presidente e candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Confira entrevista realizada com Marina após o encontro com Bonelli: “Governo Lula fará revolução na política ambiental, diz Marina“.

DEPUTADAS INDÍGENAS QUEREM FAZER FRENTE AO BOLSONARISMO

“Eu fui eleita por São Paulo e a Célia por Minas Gerais, mas nosso mandato é nacional, para os povos indígenas e o meio ambiente”, diz Sonia Guajajara. “O governo Bolsonaro escolheu os povos indígenas como inimigo número um”, completa Célia Xakriabá. “Se ele escolheu a gente como inimigo, nós fomos os primeiros a levantar”.

O primeiro indígena eleito deputado federal foi Mário Juruna, em 1982. O assunto é abordado em vídeo da série De Olho na História: “Com gravador na mão, Mario Juruna abriu caminho para indígenas no Congresso”. A primeira mulher indígena eleita para o Congresso foi Joênia Wapichana, pela Rede em Roraima, em 2018. Ela não conseguiu a reeleição.

Entre os senadores, dois eleitos se autodeclararam indígenas: o ex-governador petista Wellington Dias, no Piauí, e o vice-presidente Hamilton Mourão, do Republicanos, no Rio Grande do Sul. O militar foi acusado de proferir fala racista contra indígenas e negros em 2018 e, em 2022, mudou sua autodeclaração de etnia de branco para indígena. Uma indígena bolsonarista foi eleita deputada federal no Amapá: Silvia Waiãpi, pelo PL, partido de Bolsonaro.  

Para conhecer melhor alguns representantes da bancada socioambiental, assista ao vídeo do De Olho na Resistência:

 

ELEITOS DEFENDEM AMBIENTE E REDUÇÃO DA DESIGUALDADE

Como o homem sobreviverá no planeta? “O desafio é enfrentar o grave problema da mudança climática, da perda da biodiversidade, de como juntar economia e ecologia para alcançar os objetivos do desenvolvimento sustentável”, enumera a ex-ministra Marina Silva. “O documento [de apoio ao candidato do PT] tem o nome Resgate Atualizado da Agenda Socioambiental Perdida e ninguém melhor que o presidente Lula pra se reconectar com essa agenda e fazer esse resgate”. 

Deputados do MST ocupam Câmara e Assembleias. (Imagem: Divulgação)

Filha de seringueiros e aliada de Chico Mendes no Acre, Marina colocou o Brasil na dianteira internacional sobre o tema. Em Minas Gerais, o deputado Padre João se destacou pelo trabalho voltado para o desenvolvimento regional sustentável, defesa da agricultura camponesa, do acesso à terra, da geração de trabalho e renda, do ambiente e da segurança alimentar e nutricional.

“A nossa [bancada progressista] continua a menor e vamos precisar de união e força para fazer um enfrentamento à altura”, constata Sonia Guajajara. “A gente foi eleita para contrapor essas tentativas de desmonte da legislação ambiental e da política indigenista”.

Os eleitos contam com a força dos movimentos sociais para atuar em um ambiente hostil. “Os ricos já têm muitos deputados, a bancada do agronegócio já tem muitos deputados”, diz o baiano Valmir Assunção. “As dificuldades do MST a gente também enfrenta no Congresso porque não tem maioria pra aprovar reforma agrária, reforma urbana e diminuir a desigualdade social”.

ASSEMBLEIAS LEGISLATIVAS GANHAM REFORÇOS CONTRA AGROTÓXICOS

Dos quase 700 candidatos que assinaram a carta-compromisso da Articulação Nacional de Agroecologia, 86 foram eleitos para as Assembleias Legislativas e Câmara Distrital. Entre eles, Renato Roseno, que foi reeleito no Ceará pelo PSOL, onde conseguiu aprovar a única lei em vigor no país que proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos no estado. 

Um destaque negativo é o Centro-Oeste: De Olho nos Ruralistas não identificou nenhum parlamentar eleito na região que esteja diretamente ligado ao campo socioambiental. (Caso o leitor tenha mais informações, atualizaremos este levantamento e este texto.)

Campanha Contra os Agrotóxicos puxa articulação nacional contra os venenos. (Foto: Reprodução)

Marquito, do PSOL, tinha mandato como vereador em Florianópolis e atuou para que a parte insular da capital se tornasse a primeira zona livre de agrotóxicos do Brasil. A petista Leninha, reeleita, foi coordenadora do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas.

Entre os militantes do MST, movimento que atua junto à ANA e à Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos, Rosa Amorim será a primeira deputada estadual do MST em Pernambuco. É o mesmo caso de Missias do MST no Ceará e de Marina do MST no Rio de Janeiro. Todos pelo PT, assim como Adão Pretto Filho, que ocupa uma vaga na Assembleia do Rio Grande do Sul, seguindo o caminho do pai. O camponês Doriel Barros completa a lista como deputado estadual em Pernambuco, pelo PT.

Saiba mais sobre agroecologia e combate aos agrotóxicos na série Brasil sem Veneno, parceria do De Olho nos Ruralistas com O Joio e o Trigo.

| Nanci Pittelkow é jornalista. |

|| Luma Prado é historiadora, roteirista e apresentadora do De Olho na Resistência e do De Olho na História. ||

||| Colaborou Alceu Luís Castilho, diretor de redação do observatório. |||

Foto principal (Mídia Ninja): ato pela terra alerta sobre retrocessos ambientais do governo Bolsonaro

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