Por Bolsonaro, fazendeiros reeditam voto de cabresto em todo o país

In De Olho na Política, De Olho no Agronegócio, Em destaque, Principal, Últimas

Sojeiros, pecuaristas e donos de frigoríficos cometem crime eleitoral ao assediar trabalhadores para que votem no candidato à reeleição; cooperativa LAR, que ajudou a espalhar Covid entre indígenas no Paraná, é investigada pelo MPF

Por Mariana Franco Ramos e Luís Indriunas

Assédio eleitoral é crime, mas o agronegócio não quer nem saber. Para reeleger Jair Bolsonaro (PL) e defender seus próprios interesses, fazendeiros reeditam o voto de cabresto. Eles ameaçam, mentem, fazem chantagens e tentam manter seus funcionários em um curral.

De Olho nos Ruralistas levantou denúncias de compra de votos em todas as regiões do país. Há exemplos de Rondônia à Bahia, do Maranhão ao Rio Grande do Sul, passando pelo Paraná. À medida que o segundo turno se aproxima, as irregularidades se multiplicam.

Assista em vídeo e compartilhe:

São casos como a da sojeira Roseli D’Agostini Lins, presidente da Associação de Produtores Rurais do Alto Horizonte, no oeste da Bahia. “Eu queria falar algo para os nossos agricultores: façam um levantamento, quem vai votar no Lula e demitam”, disse ela, a colegas. “Demitam sem dó”.

Segundo a Central Única dos Trabalhadores (CUT), após a divulgação das imagens, o Ministério Público do Trabalho (MPT) na Bahia instaurou um inquérito civil para investigar a possível ocorrência de assédio eleitoral nas declarações da fazendeira.

O órgão tem sido acionado com frequência. O problema é que Roseli é apenas mais uma, entre tantas pessoas que passam por cima da lei para apoiar o capitão.

Também na Bahia, um fazendeiro chegou a obrigar funcionárias a votarem com celular no sutiã. O assédio partiu de Adelar Eloi Lutz, dono de propriedades rurais em Formosa do Rio Preto, a 756 quilômetros de Salvador. Há registro do crime eleitoral em gravações que circulam em aplicativos de mensagens.

Cyro de Toledo Junior, ou Nelore Cyro, como é conhecido, prometeu pagar 15º salário se Bolsonaro ganhar. “Eu quero gente que pensa igual a mim e vista a camisa da fazenda”, afirmou o pecuarista de Araguaçu, no Tocantins.

Muitos desses assediadores têm a “ficha corrida”. Cyro já foi multado em R$ 32 mil pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por desmatamento e foi processado por um funcionário que precisava comprar a própria água, como o observatório noticiou: “Pecuarista que promete 15º salário caso Bolsonaro vença desmatou área de Cerrado“.

Cyro e sua mulher levaram multas do Ibama por desmatamento em fazenda no Tocantins. (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

No Vale do Guaporé, nos municípios de Rondônia que fazem fronteira com a Bolívia, fazendeiros pedem votos pelo WhatsApp ligando a possível vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à perda de terra para os povos indígenas Migueleno e Puruborá.

No Maranhão, em uma das capitais do Matopiba, a ameaça é explícita. Um dos irmãos da família Zaltron pede a outros fazendeiros boicote a um empresário local que declarou voto em Lula. No mesmo município, outra empresa fornece água potável para moradores de cinco bairros. A New Agro defende em carta a reeleição de Bolsonaro.

DONO DE FRIGORÍFICO QUE ESPALHOU COVID ENTRE INDÍGENAS RESPONDE A DEZ DENÚNCIAS

Outro caso emblemático é o da Lar Cooperativa Industrial, de Matelândia (PR), que segundo o MPT responde a pelo menos dez denúncias de assédio eleitoral. “O caminho melhor para a nossa geração, para os nossos filhos e netos é reeleger o presidente Bolsonaro”, escreveu o diretor-presidente, Irineo da Costa Rodrigues, em ofício enviado aos trabalhadores.

A procuradora Cláudia Honório informou que existem provas suficientes da prática ilegal. “Sendo graves os fatos, e diante da negativa de empregadora em ajustar sua conduta, havendo descumprimento da recomendação encaminhada, viu-se o MPT compelido ao ajuizamento de ação civil pública”, determinou, no despacho.

Através da Lar Cooperativa, soja da Brasília do Sul chega ao mercado europeu. (Imagem: Earthsight)

A LAR integra a cadeia de financiamento do Instituto Pensar Agro (IPA), motor logístico da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), e é mencionada no dossiê “Os Financiadores da Boiada”, do De Olho: “Principais financiadores da bancada ruralista faturam mais de R$ 1,47 trilhão“.

Ela também é citada no relatório “Sangue indígena: A verdade incômoda por trás do frango exportado para a Europa”, que mostra o caminho percorrido pela soja produzida na Fazenda Brasília do Sul, em Juti (MS), até o mercado europeu. A publicação é uma parceria do observatório com a organização britânica Earthsight. O local foi palco do assassinato do cacique Marcos Veron.

Durante a pandemia, a LAR foi responsável por espalhar a Covid entre indígenas do oeste paranaense. Um guarani de 32 anos, que trabalha no frigorífico e mora na comunidade Ocoy, localizada em São Miguel do Iguaçu, foi o primeiro caso registrado: “Guarani que trabalha em frigorífico contrai Covid-19 e é 1º caso na região de Foz do Iguaçu“. Na época, o cacique Celso Jopoty Alves contou que a companhia decidiu não paralisar as atividades, colocando toda a aldeia em risco.

EMPRESÁRIOS DO SUL AMEAÇAM FECHAR AS PORTAS

A coação feita pelo dono da Stara, que vende máquinas e implementos agrícolas, está igualmente documentada. Gilson Tennepohl mandou, assim que saiu o resultado do primeiro turno, uma carta aos funcionários. “Se o Lula ganhar, a empresa vai cortar 30% do orçamento”, ameaçou. Ele é o vice-prefeito de Não-Me-Toque, no Rio Grande do Sul.

Filiado ao União Brasil, partido do ex-juiz Sergio Moro, o gaúcho doou R$ 1 milhão ao PL de Bolsonaro. Segundo reportagem da Agência Pública, ele também está entre os empresários que bancaram a ida de tratores do agronegócio ao desfile do 07 de setembro em Brasília.

Assim como a Stara, uma de suas principais concorrentes, a Extrusor, encaminhou uma carta a fornecedores afirmando que, com Lula eleito, passará a funcionar apenas de forma virtual, cortando contratos. Em outras palavras: ameaças de cortes e demissões.

Enquanto isso, articuladores de grupos fascistas negociam votos em Bolsonaro por comida. O goiano André Luiz Bastos Paula Costa é um deles, de acordo com a polícia do Distrito Federal. O pecuarista chegou a ameaçar o governador Ibaneis Rocha (MDB), aliado de Bolsonaro. Em 2018, foi acusado de tentar esfaquear um pequeno agricultor.

Frigorífico continua usando imagem de Bolsonaro. (Foto: Reprodução)

Em São Miguel do Guamá, no nordeste do Pará, o dono de cerâmicas Maurício Lopes Fernandes Júnior, o “Da Lua”, compra votos por 200 reais. Em um vídeo, ele afirma que, na hipótese de vitória do petista, teria de fechar a empresa, porque “ninguém vai aguentar o pepino que vem”.

Fernandes Júnior convoca todos os trabalhadores, independentemente do cargo, a dar o nome para, em caso de vitória de Bolsonaro, receber o dinheiro combinado.

E em Goiás tem liquidação de carne: vende-se picanha a qualquer preço para que o agronegócio mantenha seu poder. O Frigorífico Goiás, que já pertenceu ao sertanejo Gusttavo Lima, garoto-propaganda da marca, anunciou a “picanha mito” por R$ 22 no dia do primeiro turno.

Uma mulher passou mal durante o tumulto e morreu. Em resposta a um post no Instagram, a primeira dama, Michelle Bolsonaro, elogiou a ação do açougue: “Muito patriota”.

BOLSONARISTA HUMILHOU DIARISTA QUE RECEBIA CESTA BÁSICA

Do outro lado do patriotismo está a humilhação. Cássio Joel Cenali, o bolsonarista que se negou a doar cesta básica para uma diarista de Itapeva, interior de São Paulo, após ela declarar voto em Lula, é fazendeiro:

— A partir de hoje é a última marmita que vem aqui. A senhora pede para o Lula agora. Está bom? É a última marmita que vem para a senhora.

Coube ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) dar mais uma lição de solidariedade. A organização entregou produtos da reforma agrária para dona Ilza Rodrigues e, sem nada em troca, garantiu compartilhar com ela suprimentos nos próximos seis meses.

Mas de onde vem o dinheiro desse voto de cabresto? Em Roraima, o garimpeiro e candidato bolsonarista a deputado federal Rodrigo Cataratas (PL) foi preso em flagrante com material eleitoral, R$ 6 mil em espécie e uma lista com nome de pessoas e valores para distribuição. Cataratas declarou à Justiça Eleitoral R$ 4,5 milhões em dinheiro vivo.

Ele é investigado pela Polícia Federal por suspeita de apoiar a exploração ilegal de minérios na Terra Indígena Yanomami. Já foi indiciado por suspeita de crime ambiental, crime contra a ordem econômica e posse e comercialização ilegal de munição de arma de fogo. Agora, compra de votos. O candidato não se elegeu, porém, ele e seus amigos estão dedicados como nunca a eleger Bolsonaro a qualquer custo.

| Mariana Franco Ramos é jornalista. |

|| Luís Indriunas integra a equipe de editores do De Olho nos Ruralistas. ||

||| Colaborou Alceu Luís Castilho, diretor de redação do observatório. |||

Imagem principal (De Olho nos Ruralistas): empresários do agronegócio querem reeleger Bolsonaro a qualquer custo

LEIA MAIS:
Pecuarista que promete 15º salário caso Bolsonaro vença desmatou área de Cerrado.
Principais financiadores da bancada ruralista faturam mais de R$ 1,47 trilhão
De Olho nos Ruralistas e Earthsight lançam relatório sobre violências contra Guarani Kaiowá no MS
Guarani que trabalha em frigorífico contrai Covid-19 e é 1º caso na região de Foz do Iguaçu
Frigorífico Goiás, de Gusttavo Lima, é condenado a indenizar trabalhadora em R$ 26 mil

You may also read!

Estudo identifica pelo menos três mortes ao ano provocadas por agrotóxicos em Goiás

Pesquisadores da Universidade de Rio Verde identificaram 2.938 casos de intoxicação entre 2012 e 2022, que causaram câncer e

Read More...

Quem é César Lira, o primo de Arthur demitido do Incra

Exonerado da superintendência do Incra em Alagoas, primo do presidente da Câmara privilegiou ações em Maragogi, onde planeja disputar

Read More...

Reportagem sobre Arthur Lira ganha Prêmio Megafone de Ativismo

Vencedor da categoria Mídia Independente, dossiê do De Olho nos Ruralistas detalha face agrária e conflitos de interesse da

Read More...

Leave a reply:

Your email address will not be published.

Mobile Sliding Menu