Dono de fazenda onde Nega Pataxó foi morta recebeu multa por incendiar APP na Bahia

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Mentores de ataque a retomada Pataxó no sul da Bahia fomentam instituto ultraconservador. (Foto: Divulgação/Mupoiba)

Américo Almeida recebeu duas autuações em 2003, por incendiar seis hectares em área de preservação permanente do Rio dos Canudos; fazendeiro foi casado com parente de José Eugênio Amoedo, autor dos disparos que mataram a pajé e feriram o cacique Nailton Pataxó

Por Tonsk Fialho e Bruno Stankevicius Bassi

Américo Almeida se declara dono da Fazenda Inhuma, palco do assassinato. (Foto: Reprodução)

Fotógrafo nas horas vagas, fazendeiro e bolsonarista. Esse é o perfil de Américo Araújo de Almeida, proprietário da Fazenda Inhuma, onde foi assassinada a pajé e líder indígena Maria Fátima Muniz de Andrade, conhecida como Nega Pataxó, no dia 21 de janeiro. Próximo do Movimento Invasão Zero, milícia rural responsável pelo ataque, Américo possui histórico de infrações ambientais, além de proximidade familiar com o atirador, José Eugênio Fernandes Amoedo, de 19 anos.

Preso em flagrante, Eugênio é filho da advogada bolsonarista Diana Fainstein Fernandes Amoedo. Américo foi casado até 2021 com a professora Simone Andrade Teixeira, sobrinha de Gicélia Fainstein — nas redes sociais, a filha de Américo chama ela de “tia”. Gicélia é casada com um tio de Diana, a mãe do atirador, que foi tema de reportagem do De Olho nos Ruralistas: “Advogada e latifundiária, mãe de assassino de Pataxó defendeu pastora no 8 de janeiro“.

A Fazenda Inhuma, local do crime, não está registrada junto ao Cadastro Ambiental Rural (CAR), tampouco nas bases fundiárias do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A ausência de cadastro junto ao poder público impede o proprietário de realizar qualquer tipo de transação envolvendo a fazenda, como financiamentos bancários e transferência imobiliária.

Apesar do vazio cadastral, Américo deu uma entrevista em vídeo ao Blog do Edyy afirmando ser o proprietário da fazenda e dando a sua versão do caso. Segundo ele, os indígenas estavam armados com “rifles, pistolas e revólveres, exatamente o que está no boletim de ocorrência”. Os Pataxó negam ter iniciado o conflito e relatam terem sofrido torturas e espancamentos, com a conivência da Polícia Militar da Bahia (PMBA), que permitiu a ação dos pistoleiros.

FAZENDEIRO INCENDIOU ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE

Além da Fazenda Inhuma, Américo cadastrou junto ao Incra duas propriedades em seu nome. Localizadas no município de Barra do Choça (BA) — a 30 quilômetros de Vitória da Conquista —, as fazendas Toca da Onça e Manaus somam 660,31 hectares. Além da pecuária, Américo cultiva café na região.

Filha de Américo passeia a cavalo na Fazenda Inhuma, palco de crime contra os Pataxó. (Foto: Reprodução/Instagram)

Em 2003, o fazendeiro foi autuado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por destruir, sem autorização, 6 hectares de “floresta considerada de preservação permanente” com uso de fogo. Mais de vinte anos depois, as multas ainda não foram pagas e somam R$ 18 mil. Com correção monetária, o valor corresponde a R$ 39,7 mil.

A Área de Preservação Permanente (APP) em questão é a do Rio dos Canudos, que atravessa as duas fazendas de Américo em Barra do Choça. Segundo dados do Programa de Monitoramento do Desmatamento por Satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Prodes/Inpe), o desmatamento nas fazendas de Américo em Barra do Choça vem ocorrendo há pelo menos duas décadas, com focos recentes identificados em 2022. Ao todo, foram desmatados 327,38 hectares — metade da área total — concentrados especialmente no entorno da APP.

Confira no mapa abaixo a mancha de desmatamento nas Fazendas Toca da Onça e Manaus:

Dono de fazenda onde Pataxó foi assassinada incendiou área de preservação na Bahia. (Cartografia: Eduardo Carlini/De Olho nos Ruralistas)

FAZENDA VIZINHA SERVIU DE PONTO DE APOIO PARA ATAQUE CONTRA OS PATAXÓ

Américo Almeida não se encontrava na Fazenda Inhuma durante a retomada da área pelos indígenas Pataxó Hã-Hã-Hãe, ocorrida em um sábado, dia 20 de janeiro. No domingo, o pecuarista estava aquartelado na propriedade vizinha, a Fazenda Floresta, ao lado dos membros do Movimento Invasão Zero, milícia rural que organizou o ataque.

Mapa mostra localização da Fazenda Floresta em relação ao local do crime. (Cartografia: De Olho nos Ruralistas)

Segundo afirmou em entrevista, Américo “ficou sabendo” no dia seguinte que seus funcionários foram rendidos por cerca de quinze homens encapuzados. Encontravam-se estendidos no chão os corpos baleados dos irmãos Nailton e Nega Pataxó. Cacique da Terra Indígena Caramuru/Paraguaçu, Nailton sobreviveu ao ataque. Não há registro de que membros do Invasão Zero ou funcionários da fazenda de Américo tenham sido feridos por arma de fogo.

A Fazenda Floresta está registrada em nome de Maria Iza Pinto de Amorim Leite, pesquisadora na área da pedagogia e membro de uma tradicional família da região de Vitória da Conquista. A propriedade faz parte de um conglomerado de fazendas registradas em nome de irmãos de Maria Iza: Eduardo e Crescêncio Pinto de Amorim Leite, este último militante bolsonarista e entusiasta das concentrações golpistas em portas de quartéis, realizadas entre 2021 e 2022.

Crescêncio segue apenas sete perfis em sua página no Instagram. Um deles é o do deputado federal Tenente-Coronel Zucco (Republicanos-RS), um dos principais incentivadores do Movimento Invasão Zero, que reivindicou o ataque aos indígenas da Fazenda Inhuma. O gaúcho é presidente da Frente Parlamentar Invasão Zero, criada em outubro de 2023, após o fracasso da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), liderada por Zucco e por Ricardo Salles (PL-SP).

Entre os presentes no ato de lançamento da frente, estavam o ex-presidente Jair Bolsonaro e a líder do Invasão Zero, Renilda Maria de Souza, a Dida.

VÍDEO DETALHA CONEXÕES ENTRE INVASÃO ZERO, UDR, TFP E BOLSONARO

Criado em abril de 2023, o Movimento Invasão Zero atua como uma milícia rural formada por fazendeiros com o objetivo de coibir indígenas e movimentos do campo. Em um dos primeiros vídeos postados no perfil do Instagram, de abril de 2023, uma mulher filma uma carreata formada, principalmente, por caminhonetes. Ela diz: “Gente, a união faz a força. Os sem terra invadiram a Fazenda Ouro Verde aqui no município de Santa Luzia, na Bahia, os produtores se juntaram e estão carregando os sem terra”. Santa Luzia fica a cerca de 50 quilômetros de Pau Brasil, onde os fazendeiros fizeram a investida contra os Pataxó.

Apadrinhado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, o Invasão Zero se conecta a uma rede de institutos e organizações da extrema direita. Em setembro de 2023, a presidente do movimento, a advogada baiana Dida Souza, marcou presença no 1º Congresso do Instituto Harpia Brasil, uma organização inspirada pelo grupo Tradição, Família e Propriedade (TFP) e presidido pelo deputado bolsonarista Vítor Hugo (PL-GO). Bolsonaro é o presidente de honra do instituto.

Dois meses depois do primeiro congresso, em novembro, o instituto era lançado na Bahia, sob a liderança de Dida Souza. Além da direita bolsonarista, o Harpia Brasil se conecta à União Democrática Ruralista (UDR), fundada por Ronaldo Caiado, atual governador de Goiás e um dos palestrantes convidados pela organização para o congresso.

Saiba mais sobre os laços que ligam o Invasão Zero à UDR e à TFP em vídeo publicado no canal do De Olho nos Ruralistas no YouTube:

Foto principal (Divulgação/Mupoiba): dono de fazenda onde líder Pataxó foi assassinada foi autuado por incendiar área de preservação permanente

| Tonsk Fialho é pesquisador e repórter do De Olho nos Ruralistas. |

|| Bruno Stankevicius Bassi é coordenador de projetos do observatório. ||

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