Talita Mel x Talita Mel: a “original” luta pelo nome contra artista da produtora de Xand Avião

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De um lado, uma música com mais de 20 anos de carreira, em Jataí (GO), com cachês normais para o padrão brasileiro; do outro, uma jovem que já entrou no mercado cobrando entre R$ 100 mil e R$ 150 mil por show; a homônima da goiana tem a bênção de uma das empresas mais contratadas por prefeituras no país 

Por Carolina Bataier

Desde 2025, a cantora goiana Talita Araújo enfrenta uma batalha judicial para reaver seu nome artístico, Talita Mel. A ação tem como alvos o empresário Juarez Pires de Moura Neto, o Jujuba, e a cantora Maria Vanuzia dos Santos Saraiva que, desde 2025, se apresenta também como Talita Mel. Com cachê estipulado em R$ 150 mil, a jovem cearense de 26 anos integra o casting da Vybbe, produtora de Xand Avião e uma das empresas que mais receberam dinheiro de prefeituras e governos estaduais nos últimos dois anos, segundo dados do dossiê Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio“, publicado em julho pelo De Olho nos Ruralistas.

Vanuzia ou Talita Mel? Cantora cearense conquistou fama após parceria com empresa de Xand Avião. (Foto: Divulgação/Instagram)

A Talita Mel “original” é uma cantora independente com 25 anos de carreira e cachê médio de R$ 4,5 mil. Ela se apresenta em festas, feiras e bares na região de Jataí (GO), onde nasceu. O município é conhecido pela produção de mel de abelha jataí — daí o nome artístico, usado pela artista desde 2018, de forma esporádica, e de forma definitiva a partir de 2021, quando deixou de se apresentar como Talita Araújo.

“Não é só o meu nome de registro”, conta Talita. “É uma identidade cultural que faz parte aqui da minha cidade, como Cidade Abelha, aqui no sudoeste goiano”.

No ano passado, um contratante tentou marcá-la em uma publicação no Instagram e foi direcionado para o perfil de outra cantora. Alertada sobre a duplicidade, Talita fez uma pesquisa e descobriu que a empresa J P de Moura Neto Eventos ME, atuante na gestão e promoção de artistas, havia protocolado em 14 de fevereiro de 2025, junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), um pedido de registro da marca “Talita Mel”. Oito dias antes, em 6 de fevereiro, Vanuzia Santos Saraiva — que até então usava o nome artístico Vanuzia Meireles — atualizou suas redes e materiais de divulgação com a nova marca.

A mudança atendia ao novo momento na carreira de Vanuzia, consolidado após o acordo para entrar no casting da Vybbe — já como Talita Mel — em outubro de 2025. De lá para cá, a cearense acumulou R$ 2,33 milhões em contratos com prefeituras e governos estaduais, de acordo com levantamento realizado por este observatório. Ao todo, a produtora de Xand Avião acumula R$ 522,21 milhões, distribuídos em 1.436 apresentações pagas com dinheiro público entre janeiro de 2024 e o primeiro trimestre de 2026.

Os dados estão sendo atualizados pelo observatório. A partir de setembro, em nosso site, divulgaremos os os números das cem bandas mais contratadas até o primeiro semestre deste ano.

Quer saber quais são as outras produtoras que dominam o mercado de shows públicos no Brasil? Clique aqui e baixe o relatório completo.

Contratada de Xand Avião, a cearense Vanuzia Saraiva iniciou maratona de shows públicos com cachê 33 vezes maior em relação à Talita Mel original, de Goiás. (Imagem: De Olho nos Ruralistas/Dossiê Farras)

TALITA ‘DA VYBBE” NÃO QUIS FALAR COM A REPORTAGEM; A ORIGINAL NÃO VÊ COINCIDÊNCIA

A reportagem procurou Vanuzia Saraiva para falar sobre o processo, mas não obteve retorno. Em entrevista ao canal Fortaleza Diário na TV, em novembro de 2025, a jovem de 26 anos contou que a orientação para mudar o nome veio do empresário Juarez Pires de Moura Neto, o Jujuba. “Precisa colocar um nome mais jovem”, relembra. “Ele falou assim: ‘Talita. O que você acha?’. Eu disse: ‘Adorei’”.

Clique na imagem e baixe o relatório completo

Para a Talita original, não há coincidência nessa história. Antes de descobrir o processo no Inpi, ela acompanhava, pelas redes sociais, o trabalho da Acertei Produções, empresa de Jujuba focada na gestão de carreiras artísticas. “Comecei a segui-los para poder mostrar o meu trabalho”, conta a cantora goiana. “Eu queria só uma oportunidade, mas na verdade eles estavam me enterrando viva”.

Na petição inicial da ação de abstenção de uso de marca e danos morais movida por Talita, a advogada Lara Vieira argumenta que a empresa J P de Moura, titular do pedido no Inpi, “atua profissionalmente na gestão de carreiras artísticas, sendo evidente que não poderia desconhecer a existência prévia da verdadeira Talita Mel no mesmo segmento musical”. A ação pede em R$ 200 mil em indenizações e que Vanuzia abdique do uso da marca.

Talita chegou a entrar em um grupo de WhatsApp de compositores vinculado à Acertei Produções, onde levantou um debate sobre o nome. Alguns músicos se manifestaram, orientando Talita a ficar “do lado certo”, isto é, não comprar briga com um nome influente no mercado. “Tipo assim: se eu não desistisse do meu nome, eu jamais seria reconhecida pelo meu trabalho”, conta.

Jujuba é um nome influente no circuito de forró, piseiro e sertanejo. Ele assina mais de 250 músicas e é um colaborador frequente de Gusttavo Lima. Sua lista de composições inclui parcerias com Bruno & Marrone, Wesley Safadão, Matheus & Kauan, Simone Mendes e Jorge & Matheus — todos eles presentes no relatório Farras, entre as cem bandas mais contratadas pelo poder público no país. Com Xand Avião, compôs as músicas “Meu Carro Virou Motel” e “Dom Dom Dom”. Por meio da empresa Jujuba Music, ele vende um curso para compositores chamado A Fórmula do Hit. Investimento? R$ 997 por matrícula.

Enquanto o processo tramita na Justiça, a cantora goiana continua a se apresentar como Talita Mel. Na última movimentação do processo consta a realização de uma audiência pública, onde a empresa de Jujuba propôs R$ 30 mil de indenização por danos morais e a “permissão” para que Talita continue usando a marca.

VANUZIA INTEGRA “FÁBRICA DE TALENTOS” DA PRODUTORA DE XAND AVIÃO

Conheça os “incubados” das produtoras que concentram R$ 2,42 bilhões em contratos públicos. (Imagem: De Olho nos Ruralistas/Dossiê Farras)

Na música “Melzinho”, de autoria coletiva de compositores associados à Jujuba, Vanuzia brinca com o novo nome artístico. “Zum-zum-zum, eu tô voando / E tem alguém que tá se incomodando”. Com 2,3 milhões de seguidores no Instagram, a cantora cearense integra a lista dos artistas “incubados” pelas cinco grandes produtoras do circuito de shows com dinheiro público.

Funciona assim: jovens promessas são apadrinhadas por artistas com mais tempo de estrada. Muitas vezes esses músicos são os próprios sócios das produtoras, como Xand, da Vybbe, Wesley Safadão, da Camarote, e Pablo do Arrocha, da M&P, os três entre os dez mais contratados por prefeituras e governos estaduais desde 2024.

O rápido crescimento nas redes sociais faz parte do pacote de investimento das empresas para impulsionar os novos talentos. O resultado disso é o aumento exponencial dos cachês. Em alguns casos, os valores chegam a aumentar dez vezes em relação ao início dos contratos. Confira alguns exemplos no gráfico ao lado.

Estreante no mundo artístico, a segunda Talita Mel, Vanuzia, começou já num patamar elevado, cobrando R$ 150 mil por 1h30 de apresentação em Aurora (CE), realizada em 10 de novembro de 2025. Seis meses depois, o primeiro aumento: R$ 170 mil pelo show no São João de Miraíma (CE), em 26 de junho de 2026.

No show Meu São João, gravado em Fortaleza, em 2026, a promessa da Vybbe dividiu palco com seu “mentor”. Na introdução da música “Dom Dom Dom”, composta por Jujuba, Xand Avião provoca: “Talita, estão dizendo por aí que a gente é uma dupla”. A cantora responde: “Mas a gente é um só, Xand”.

Procurada, a produtora Vybbe não respondeu à reportagem.

LIVE DISCUTE IMPACTO DE DOSSIÊ ENTRE MÚSICOS PROFISSIONAIS

A investigação do relatório Farras não termina com a publicação do documento. De Olho nos Ruralistas reuniu dados sobre mais de 20 mil contratos de shows com dinheiro público, de mais de 250 artistas que se apresentaram em todo o território nacional.

Clique para acessar a live.

Esse conteúdo não caberia em um relatório de 86 páginas. Por isso, desenvolveremos os temas em uma série de reportagens, vídeos e infográficos publicados tanto em nosso site quando no canal do YouTube. A cobertura incluirá ainda a realização de lives, entrevistando personagens da série.

A primeira live será realizada nesta quarta-feira (19), às 19h, em nosso canal do YouTube. O diretor do observatório Alceu Luís Castilho entrevistará, ao lado da apresentadora Gaia Lourenço, o presidente do Sindimus-MG, Gilberto Mauro, e a cantora goiana Talita Mel.

Com vinte anos de carreira, ela teve o nome artístico copiado por outra intérprete, vinculada à produtora Vybbe, de Xand Avião. Enquanto a Talita Mel “original” recebe um cachê de R$ 4,5 mil, a Talita Mel da Vybbe começou a carreira cobrando R$ 150 mil por show.

Clique aqui para acessar o link da live.

Imagem principal (De Olho nos Ruralistas): live reunirá representantes da categoria de músicos profissionais para discutir dados do relatório

| Carolina Bataier é repórter do De Olho nos Ruralistas. |

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