Doações de campanha mostram ligações entre Maggi e seu delator

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Ministro fez doação para eleger Riva na AL-MT; usina do ex-deputado René Barbour, outro acusado, financiou campanha de ambos

Por Alceu Luís Castilho

Todo poderoso no Mato Grosso, José Riva mandava e desmandava na Assembleia Legislativa, onde foi presidente e presidente de honra. Hoje está preso. Resolveu delatar. Principal alvo, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi. Este tem trajetória ascendente: de governador foi para o Senado e entrou no governo Temer. Chega a ser cotado para a Presidência da República. Riva diz que, no governo estadual, Maggi pagava um “mensalinho” para os deputados estaduais. O ministro nega.

Os dois nunca foram inimigos. O ministro chegou a doar R$ 2 mil para a campanha de Riva (PP-MT) à Assembleia, em 2010. Valor pequeno, mas simbólico. E os dois políticos são réus num mesmo processo. Eles tiveram R$ 4 milhões em bens bloqueados, em janeiro, acusados de participar da compra de uma vaga no Tribunal de Contas do Estado. A decisão foi mantida no início de março. Leia mais aqui: “Justiça do MT bloqueia 0,1% do patrimônio de Blairo Maggi“.

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Outras doações de campanha em 2010 – de usinas, madeireiras, empreiteiras – movimentavam somas bem maiores. Riva (Assembleia) e Maggi (Senado) tiveram boa parte de suas campanhas financiadas pelo agronegócio. Várias empresas foram condenadas por motivos diversos, da morte de trabalhadores por falta de segurança à dificuldade criada para um funcionário adolescente estudar. Marfrig e Dagranja, investigadas na Carne Fraca, doaram quantias significativas para Maggi.

USINEIROS E DEVEDORES

Entre as que doaram para os dois políticos está a usina Barralcool. Em 2010, a empresa doou R$ 80 mil para a campanha de Riva à Assembleia, e R$ 50 mil, em espécie, para a campanha de Maggi (à época no PR-MT) ao Senado; e, em 2006, R$ 150 mil para a campanha à reeleição de Maggi ao governo estadual, pelo PPS. O fundador da usina foi o falecido deputado René Barbour (PPS-MT). Que é um dos 33 políticos acusados, por Riva, de ter recebido o “mensalinho”, entre 2003 e 2010, durante o governo de Blairo Maggi. Mesmo ano em que a Barralcool  – hoje na mão dos filhos de Barbour – financiou as campanhas dos dois políticos.

Lula e Maggi na inauguração de usina da Proalcool, em 2006 (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Em 1998, René Barbour declarou mais de 50 mil hectares de terras no Mato Grosso e 42 mil cabeças de gado. Amealhou terra e poder. Em 2006, a primeira usina de biodiesel do mundo, uma parceria de sua empresa com a Dedini, foi inaugurada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo governador Blairo Maggi. A Barralcool – usina que tradicionalmente promove missas nos inícios da safra de cana-de-açúcar – foi condenada, em agosto, a pagar R$ 500 mil de indenização por causa da morte de dois trabalhadores. A juíza decidiu que as condições eram inseguras. João Batista de Oliveira morreu após sofrer um choque elétrico. Anderson Silva Pereira, esmagado – como se fosse um bagaço.

No Senado, Blairo Maggi foi um defensor do biodiesel. Em 2015 ele também apresentou um projeto que limitava as investigações do Ministério Público. “As investigações acabam sendo excessivamente prejudiciais ao patrimônio jurídico da pessoa investigada”, disse à época o atual ministro. O grupo André Maggi é investigado pelo Ministério Público Federal do Pará por participação em um dos maiores esquemas de desmatamento ilegal na Amazônia. O grupo AMaggi, o Bom Futuro e a JBS foram acusados de comprar grãos e bois de áreas embargadas.

A Usinas Itamarati, na época pertencente ao antigo “rei da soja”, Olacyr de Moraes, doou R$ 50 mil para Maggi (em 2006, R$ 100 mil) e R$ 20 mil para Riva. Dois anos depois, endividada, ela foi colocada à venda. A empresa deve R$ 166 milhões à Previdência. É a 39ª maior devedora do país e a maior do Mato Grosso. Olacyr morreu em 2015. Somente a Usinas Itamarati chegou a possuir 100 mil hectares no Mato Grosso – fora os 110 mil hectares da Itamarati Norte.

Outra empresa que fez doação para as duas campanhas é a empreiteira Camargo Corrêa.

INVESTIGADAS NA CARNE FRACA

A campanha de Maggi ao Senado, em 2010, contou com a doação de frigoríficos. O Mabella doou R$ 107 mil. As avícolas Agrofrango e Penasul, outros R$ 107 mil. Mesmo valor doado pela MBL Alimentos. A Dagranja Agroindustrial, uma das maiores devedoras da Previdência (assim como JBS, Marfrig e Dedini), mais R$ 107 mil. A avícola Dagranja foi um dos alvos de busca e apreensão durante a Operação Carne Fraca, no início de março, no Paraná. Na qual não entrou a gigante Marfrig. E quanto a Marfrig doou para Maggi? R$ 107 mil. (O valor foi arredondado para facilitar. Todas essas empresas doaram exatamente R$ 107.142,86 cada.)

A multinacional francesa Louis Dreyfus doou R$ 250 mil para a campanha de Maggi. A Moinho Iguaçu, R$ 107 mil. A argentina O Telhar Agropecuária, R$ 50 mil – alguns meses após ser investigada pelo Ministério Público do Trabalho por trabalho escravo e outras violações de direitos dos trabalhadores. (Curiosamente, a empresa tem sede em um bairro de Primavera do Leste chamado Jardim Riva.)

SEM ESCOLA

A Comercial de Alimentos JPM doou R$ 100 mil para a campanha de José Riva à Assembleia. Foi uma das maiores financiadoras de sua eleição. Pertencente a um ex-prefeito de Várzea Grande, Tião da Zaeli (PSD), ela foi condenada, em 2013, a pagar R$ 8 mil por impedir que um trabalhador de 17 anos frequentasse a escola.

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