FHC, o Fazendeiro – Propriedades rurais da família Odebrecht se estendem por São Paulo, Minas, Goiás, Mato Grosso do Sul e Bahia

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Foi em uma delas que os irmãos se reuniram para reduzir capital social de empresa e distribuir aos sócios, em suposta tentativa de driblar bloqueio de bens de Marcelo Odebrecht

Por Alceu Luís Castilho

Quantos mil hectares possui a família Odebrecht? Aqui seguem algumas pistas sobre o império agropecuário de Emílio Alves Odebrecht, Marcelo Bahia Odebrecht e Mauricio Bahia Odebrecht. Os dois primeiros são o pivô de um dos mais conhecidos escândalos de corrupção na história do Brasil, sob investigação na Lava-Jato. Mas a face territorial – e agropecuária – desse império costuma passar despercebida. Embora a empresa seja a quinta maior vendedora de touros do Brasil e tenha centenas de milhares de hectares.

As propriedades da família dividem-se entre aquelas da Odebrecht Agroindustrial, renomeada para Atvos, e aquelas de outras empresas do grupo – em geral com a sigla EAO a tiracolo. Somente a EAO Empreendimentos Agropecuários e Obras possui um capital social de R$ 243 milhões. Ela é presidida por Emílio Odebrecht, mas quem cuida mais do setor é o filho Maurício, pouco mencionado nos escândalos de corrupção.

Bahia, ponto de partida. (Imagem: Reprodução)

No mercado da cana de açúcar é muito comum as terras serem arrendadas. É o caso de uma fazenda pertencente a Jovelino Mineiro – amigo e Fernando Henrique e personagem central desta série de reportagens – no Pontal do Paranapanema: “FHC, o Fazendeiro – Em Teodoro Sampaio (SP), Jovelino Mineiro arrenda fazenda para Odebrecht”.

De qualquer forma o controle territorial pelos usineiros é superlativo: o grupo Odebrecht chegou a explorar 450 mil hectares, em um dos últimos anos, para plantar cana em São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás.

A própria empresa informa possuir canaviais no entorno de Unidades de Conservação localizadas nesses quatro estados, como o Parque Nacional das Emas, em Goiás, desde 2001 um Patrimônio Natural da Humanidade, e o Morro do Diabo, no extremo oeste paulista. Somente o plantio nessas áreas ultrapassa 83 mil hectares.

REUNIÃO EM FAZENDA FICOU SOB SUSPEITA

Foi em uma das fazendas da EAO, na Bahia, a Baviera, que a família se reuniu, no ano passado, para reduzir o capital social de uma das empresas: de R$ 299,7 milhões para R$ 2,7 milhões. É lá que fica a sede da EAO Empreendimentos e da EAO Patrimonial Ltda, uma sociedade entre Marcelo, Maurício, Mônica e Márcia Bahia Odebrecht, com usufruto das ações para o casal Emílio e Regina Odebrecht.

A ata da reunião de sócios realizada em junho de 2017 mostra que Marcelo – na época preso na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba – foi representado pelo irmão Maurício. A decisão da reunião foi única: reduzir o capital. O motivo, um acordo de acionistas da Kieppe Patrimonial S.A. – leia-se Odebrecht – realizado em maio de 2016. O capital social foi considerado pelos contadores “excessivo em relação ao objeto social”.

A consequência foi a restituição, por meio de ações da EAO Empreendimentos, de R$ 74,3 milhões para cada um dos quatro irmãos (entre eles Marcelo Odebrecht), cada um dono de 21% do capital da empresa.

Em janeiro, a Folha informou que o Tribunal de Contas da União (TCU) considerou a alteração um descumprimento do bloqueio de bens imposto ao empresário no ano passado, uma “violação à indisponibilidade”.

VACAS QUE VALEM MILHÕES

Maurício Odebrecht cuida de um mercado onde as vacas são vendidas por milhões de reais. Somente uma delas, Maharash II, foi comprada por R$ 3,46 milhões, em 2016, numa sociedade entre a EAO Empreendimentos, o pecuarista Jaime Pinheiro e a Fazenda Guadalupe, de outro personagem recorrente desta série: o ex-presidente da empresa Pedro Novis, um dos delatores premiados da Lava-Jato.

Nesse mesmo ano – já com a Odebrecht no olho do furacão – a EAO faturou R$ 10 milhões com 2.700 animais em um leilão em Itagibá, no sul da Bahia. A vaca mais cara foi vendida por R$ 130 mil. Média por cabeça, R$ 1.183. Segundo a revista especializada AG, a EAO foi a quinta maior vendedora de zebus em 2017, com 880 animais da raça Nelore vendidos.

É por meio da EAO que Emílio Odebrecht é acionista da Recepta Biopharma, empresa de genética – e de pesquisa contra o câncer – que tem também Jovelino Mineiro como sócio: “FHC, o Fazendeiro – Sócios em empresa, Emílio Odebrecht e Jovelino Mineiro já foram representados em assembleia pelo advogado de FHC”.

PELA BAHIA, LATIFÚNDIOS

Foi na Fazenda Baviera, o palco dos leilões da EAO, que os Odebrecht se reuniram para redistribuir o capital, no ano passado. A propriedade em Itagibá foi adquirida em 1994 e possui 6 mil hectares. Bem menos que a Fazenda Reunidas Boa Vista, em Ibicuí, município vizinho conhecido pelas festas juninas.

Sede da EAO Empreendimento Agropecuários, a Fazenda Boa Vista possui 17 mil hectares. Maurício Odebrecht pilota também, desde 2006, a Fazenda Reunidas Uberaba, na Rodovia MG-427, com 1.200 hectares. Lá ele cria gado Gir e Nelore.

Em julho de 2017 – um mês após a reunião dos Odebrecht – foi realizado na mesma Fazenda Baviera o 4º Mega Evento EAO, o nome do leilão local de touros. O evento com 750 animais foi patrocinado por empresas como Chevrolet e Santander.

Nessa época Marcelo Odebrecht estava preso em Curitiba; o patriarca Emílio, em prisão domiciliar.

O leilão do ano passado na Fazenda Baviera teve transmissão do Canal Rural. Mas antes era transmitido pelo Terra Viva, da Band, fundado por Jovelino Mineiro e outros pecuaristas: “FHC, o Fazendeiro – Imprensa: Jovelino Mineiro foi um dos fundadores do canal Terra Viva, da Band”.

USINAS CONTROLAM CENTENAS DE MILHARES DE HECTARES

MS: lógica de expansão territorial. (Foto: Divulgação)

As informações sobre plantio de cana pela Atvos e suas antecessoras no grupo Odebrecht, nos últimos anos, dão conta de utilização anual de até 450 mil hectares. Mas não fica clara a distribuição desse território. O que é certo é que cada uma das unidades possui algumas dezenas de milhares de hectares – ou quase centena de milhares – à disposição.

A Usina Santa Luzia, em Nova Alvorada do Sul (MS), possui cerca de 80 mil hectares plantados. “Todos arrendados”, informou o superintendente do polo local da Atvos, Fabiano Pontes, ao jornal Correio do Estado. Ainda no Mato Grosso do Sul, o polo de Rio Brilhante planta cana em 31 mil hectares.

Em Goiás, a Rio Claro Agroindustrial planta cana de açúcar em cerca de 48 mil hectares. Em Mato Grosso, segundo relatório da safra 2017/18 da empresa, somente em áreas localizadas em Unidades de Conservação os canaviais somaram 80.135 hectares.

Confira o texto sobre incidência das terras em Unidades de Conservação: “FHC, o Fazendeiro – Braço usineiro da Odebrecht diz plantar em Unidades de Conservação”.

LEIA A SÉRIE COMPLETA:
“FHC, o Fazendeiro – tudo sobre as terras da família, os amigos pecuaristas e a Odebrecht”.

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