De Olho na História (III) — 15 anos após assassinato, Dorothy Stang inspira resistências na Amazônia

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Missionária chegou ao Brasil em 1966 e se tornou internacionalmente conhecida em 2005, quando foi executada a mando de dois desmatadores em Anapu, no Pará; ela já tinha recebido várias ameaças de morte, mas nunca se intimidou

Por Priscilla Arroyo

Missionária, ambientalista, mártir. Essas são algumas das palavras que definem a vida e o legado de Dorothy Mae Stang, religiosa estadunidense pertencente à Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur que se naturalizou brasileira para lutar ao lado dos camponeses pelo seu direito à terra e à existência, contra as ameaças de grileiros que, ainda hoje, continuam a destruir a Amazônia.  

Há 15 anos, na noite de 12 de janeiro de 2005, era assassinada a missionária, sob encomenda dos fazendeiros Vitalmiro Bastos de Moura e Regivaldo Pereira Galvão, conhecidos como Bida e Taradão.

O nome de Dorothy Stang se tornou sinônimo de resistência no campo, inspirando novas gerações de ambientalistas e abrindo caminho para a consolidação dos assentamentos do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança e Virola Jatobá, em Anapu (PA), com mais de 600 famílias.

O dia foi marcado por uma série de homenagens à missionária. A Comissão Pastoral da Terra (CPT), na qual Dorothy teve participação ativa desde sua fundação, promoveu o twittaço #15AnosSemDorothy. A data também integra o calendário litúrgico da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, que concedeu à freira o título de “Mártir da Caridade na Amazônia”, e de outras igrejas que celebram missas em sua memória. Irmã Dorothy recebeu diversas ameaças de morte, sem se intimidar.

Pouco antes de ser assassinada, declarou: “Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar”.

Dorothy Stang é a terceira personagem retratada na série De Olho na História, que teve início com as líderes camponesas paraibanas Margarida Maria Alves e Elizabeth Teixeira.

Nascimento: 7 de junho de 1931, em Dayton, Ohio, na região Centro-Oeste dos Estados Unidos.

Família: filha de fazendeiros e criada na atividade agrícola junto a seus oito irmãos.

Principal atividade: Defensora dos direitos ambientais, agrárias e de direitos humanos, irmã Dorothy abraçou, em parceria com representantes de sindicatos rurais e da Pastoral da Terra, a missão de desenvolver projetos sustentáveis para a geração de emprego e renda com reflorestamento em áreas degradadas. Seu objetivo era promover melhores condições de vida e de trabalho para a população de Anapu, pequena cidade do Pará a 600 quilômetro de Belém.

TRÊS DÉCADAS DE MILITÂNCIA EM ANAPU (PA)

Irmã Dorothy continua inspirando a luta de camponeses no Pará. (Foto: Reprodução)

Trajetória: Freira norte-americana naturalizada brasileira, Dorothy pertencia à congregação católica internacional Irmãs de Nossa Senhora de Namur, ao lado de mais de 2 mil mulheres que realizam trabalho pastoral pelo mundo. Ela começou a atuar no Brasil em 1966, em Coroatá (MA). Em 1972, foi para a Amazônia e se instalou na Vila de Sucupira, berço da pequena cidade de Anapu (PA), inaugurada em 1972 para abrigar trabalhadores que construíam a Rodovia Transamazônica (BR-230). A sua missão ali era promover uma vida digna, por meio da agricultura camponesa, às pessoas que passaram a habitar a região. Ela ajudou a fundar Escola Brasil Grande, primeira dedicada à formação de professores do município, em parceria com a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Uma de suas principais iniciativas — e a que mais incomodava os poderosos da área — foi o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança. Com área de 32 mil hectares e ligado ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a proposta tem como objetivo beneficiar 400 famílias ao reverter a lógica de desenvolvimento focado em crescimento econômico pela adoção de um modelo capaz de conciliar a atividade produtiva e o respeito ao ambiente. Por quatro décadas de atuação, ela foi premiada, em 2004, pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-Pará) pela luta em defesa dos direitos humanos.

Morte: Irmã Dorothy foi assassinada com seis tiros, aos 73 anos, em 12 de fevereiro de 2005. Ela sofreu uma emboscada na estrada que leva ao lote 55 do PDS Esperança, onde se encontraria com técnicos do Incra para discutir detalhes do projeto. O crime foi encomendado por dois fazendeiros: Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, e Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, grileiros que brigavam por posse de terras pertencentes à União. Ambos foram condenados a 30 anos de detenção. Bida está em prisão domiciliar desde 2015. Taradão foi preso somente em abril do ano passado, depois de aguardar a maior parte dos catorze anos em liberdade. O intermediário do assassinato,  Amair Feijoli da Cunha, o Tato, foi condenado a 18 anos de prisão e em 2010 passou a cumprir a pena em domicílio. O autor dos disparos, Rayfran das Neves Sales,  foi condenado a 27 anos. Em 2013, ele passou a cumprir prisão domiciliar e, em 2014, cometeu outro assassinato. Seu comparsa, Clodoaldo Carlos Batista, o Eduardo, teve pena de 17 anos e a cumpre em regime semi-aberto. Saiba mais sobre Bida e Taradão na série De Olho nos Desmatadores: “Multas do Ibama para assassinos de Dorothy Stang prescreveram ou ainda não foram pagas“.

Por que ela foi assassinada: A grilagem de terras públicas e a extração ilegal de madeira transformaram o município de Anapu em uma terra sem lei, onde pistoleiros andam pelas ruas sem medo de sofrerem punição. Em 2005, o centro da disputa se dava em uma área de 120 mil hectares, onde Dorothy promovia os dois PDS’s da região, a cinquenta quilômetros do centro de Anapu. Ao longo dos últimos quinze anos, os conflitos podem ter trocado o epicentro, mas permaneceram. De acordo com dados do Centro de Documentação da CPT Dom Tomás Balduino, aconteceram 23 assassinatos em conflitos no campo no município entre 2005 e 2019.

Seu sucessor, Padre Amaro: Após a morte da Irmã Dorothy, Padre José Amaro Lopes de Sousa, seu braço direito e agente da CPT, dera continuidade aos projetos de sua companheira. Ao seguir na defesa dos direitos humanos e na realização de projetos com os assentamentos de sem-terra na região de Anapu, ele passou a ser criminalizado pelos fazendeiros e virou alvo da polícia. Padre Amaro passou a ser investigado por envolvimento em crimes como extorsão, assédio sexual e lavagem de dinheiro e foi preso em março de 2018. A detenção foi questionada pela CPT, que definiu a prisão como uma medida para “satisfazer aos interesses dos latifundiários” da região. Em nota, a pastoral alega que a decisão não se baseou em fatos concretos, mas em depoimentos de fazendeiros e de outras pessoas contrárias ao seu trabalho. Três meses depois, uma liminar expedida pela 6º turma do Superior Tribunal de Justiça lhe deu o direito de responder ao processo em liberdade. O último desdobramento do caso aconteceu em 6 de dezembro do ano passado quando a principal testemunha de defesa de padre Amaro, Márcio Rodrigues dos Reis, de 33 anos, foi morto em uma emboscada. Mototaxista, ele foi assassinado com uma facada em entrada que liga os municípios paraenses de Anapu e Pacajá.

SAIBA MAIS SOBRE DOROTHY STANG

A série De Olho na História não tem a pretensão de fazer um resumo amplo da trajetória de cada uma das heroínas brasileiras no campo. O mais importante, no momento, é que o leitor se interesse em saber um pouco mais sobre cada uma delas.

Livros: “A Dádiva Maior – A Vida e a Morte Corajosa da Irmã Dorothy Stang”, de Binka Le Breton (Editora Globo, 2008) e “Dorothy Stang: Invasão, Conflitos e Homicídio”, de Nezilda Jacira Lourinho de Campos (Editora Appris, 2019).

Documentário: Mataram Irmã Dorothy” (2008), de Daniel Junge e com narração dos atores Martin Sheen (versão estadunidense) e Wagner Moura (versão brasileira), incluído na lista dos 15 pré-selecionados ao Oscar de melhor documentário de 2009. “Um sonho: a terra“, da TV Brasil/EBC, parte do especial Caminhos da Reportagem.

Foto principal: CPT-PA

 

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