Dos 51 candidatos a prefeito donos de rádios e TVs, 22 foram eleitos

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Cinco deles já foram deputados federais, o que ilustra o poder do coronelismo eletrônico no país; entre esses políticos estão os ex-governadores Mão Santa (Piauí) e Nilo Coelho (Bahia); madeireiro retransmissor da Globo em Itaituba (PA) foi reeleito

Por Alceu Luís Castilho, Patrícia Cornils e Sarah Fernandes

Dos 51 candidatos a prefeito donos de emissoras e rádio e TV, 22 foram eleitos no primeiro turno das eleições de 2020, no dia 15, a maioria com votações bastante expressivas. O poder midiático foi às urnas e levou para as prefeituras proprietários de concessões públicas de comunicação de dezesseis estados, muitos também fazendeiros, pecuaristas e nomes já denunciados por exploração de trabalho escravo.

As empresas de comunicação dos prefeitos eleitos são, na maioria, emissoras locais, com programas de entretenimento e jornalismo. Alguns dos novos prefeitos possuem a concessão de vários veículos, outros chegaram a retransmitir sinais de grandes emissoras, como a Globo e o SBT. 

Parte dos novos prefeitos já havia exercido outros cargos políticos, como os ex-governadores Mão Santa (DEM), eleito prefeito de Parnaíba (PI) com 68,37% dos votos, e Nilo Coelho (DEM), que conquistou 59,06% dos votos para a prefeitura de Guanambi (BA). Cinco deles já tinham sido deputado federal.  

A propriedade de rádios ou TVs é vedada para deputados e senadores em exercício, exatamente por se tratar de concessão pública. Essa proibição, contida no Artigo 54 da Constituição, segundo o entendimento de organizações sociais que defendem a democratização da mídia, é ignorada e nunca foi devidamente analisada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), apesar de vários processos já terem sido protocolados.

Os dados foram levantados pelo De Olho nos Ruralistas com base nas declarações de bens entregues pelos candidatos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O observatório publica, desde 28 de novembro, a série O Voto que Devasta, que acompanhou a candidatura de donos de rádios e TVs ainda antes do primeiro turno: “Cinquenta e um candidatos a prefeito em 21 estados declaram possuir rádios e TVs”.

EM ITAITUBA, PREFEITO DONO DE TV É ACUSADO DE DESMATAMENTO 

Madeireiro, garimpeiro, pecuarista, Valmir Climaco se reelege em Itaituba. (Foto: Reprodução)

Além de ter sido reeleito prefeito de Itaituba (PA), uma das principais fronteiras de desmatamento na Amazônia, Valmir Climaco de Aguiar (MDB) também é conhecido como madeireiro, garimpeiro, empreiteiro, pecuarista e empresário da comunicação. Nessa trajetória, acumulou processos por desmatamento, grilagem, omissão de socorro e até tráfico de drogas.

Reeleito com 77,42% dos votos, ele é um dos proprietários da empresa VCA Comunicação, que há pelo menos uma década retransmite a Globo. 

Ironicamente, Climaco foi personagem de uma reportagem do programa Fantástico em agosto, que denunciou que toneladas de mercúrio estavam sendo jogadas em rios da região de Itaituba. Para o emedebista, “essa história de que os peixes do Tapajós estão contaminados com azougue é conversa de gente besta”.

Em junho de 2019, que é acusado de desmatamento em reserva ambiental e de não pagar direitos trabalhistas a funcionários, chegou a dizer que receberia “à bala” funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai) que entrassem em sua fazenda para averiguar sobreposição com terra indígena.

Poucas semanas depois, a Polícia Federal encontrou 580 quilos de cocaína na Fazenda Borboré, de sua propriedade, além de dois fuzis, uma pistola, munições, uma luneta de precisão para uso em fuzil: “Acusado de grilagem, desmatamento e tráfico, prefeito é retransmissor da Globo em Itaituba (PA)“.

PREFEITO REELEITO NA BAHIA É PROPRIETÁRIO DE RÁDIO E DE 19 FAZENDAS

De novo eleito em Guanambi, o ex-governador baiano Nilo Coelho é sócio-administrador da Rádio Cultura de Guanambi em sociedade com a esposa Solange Maria de Oliveira Coelho, além de ter feito à emissora um empréstimo de R$ 710 mil, segundo informações declaradas ao Superior Tribunal Eleitoral (STE) na candidatura eleitoral. 

Nilo Coelho, eleito prefeito de Guanambi (BA) é dono de uma das princpais rádios do município. (Foto: Divulgação)

Ele também é dono de dezenove fazendas e outros dois imóveis rurais, a maioria deles na Bahia, ao menos dois em municípios que integram o perímetro do Matopiba (formado por parte dos estados do Maranhão, Tocantins Piauí e Bahia), considerado a última fronteira do agronegócio no país. Ele foi um dos principais latifundiários da eleição, com ao menos 68.818 hectares de terras declarados.

Cinco das fazendas têm valor declarado de pelo menos R$ 1 milhão, com destaque para a fazenda Dallas, em Itapetinga (BA), que vale R$ 2 milhões e possuí 3.798,4 hectares, pouco menos que o município de Olinda (PE). Seu patrimônio total declarado foi de R$ 59.846.596,75. 

Nilo recebeu a segunda maior votação da história do município, somando 29.180 votos. Ele já havia sido eleito prefeito de Guanambi em 2004 e 2008, ano em que foi o político com a maior quantidade de bois na corrida eleitoral, com 21.853 cabeças de gado. 

Guanambi fica no oeste da Bahia, marcado por forte expansão do agronegócio e por recorde de queimadas no estado em 2019. Só na região do município foram registrados 161 focos de queimadas no ano passado, segundo dados de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). 

Outro ex-governador eleito prefeito é Mão Santa, que já esteve à frente do estado do Piauí e a partir do ano que vem administrará Parnaíba. Ele tem participação na Rádio Igaraçu, antiga Rádio Globo Parnaíba, a 95,7 FM, que manteve parceiras com o grupo Globo até 2014. Mão Santa foi recebido pelo presidente Jair Bolsonaro em 17 de março, já durante a pandemia do novo coronavírus, definido por ele como “um vírus boiola“. Seu patrimônio total declarado é de R$ 431.684,00. 

APAGÃO NO AMAPÁ ADIA CORRIDA ELEITORAL DO IRMÃO DE ALCOLUMBRE

O apagão no Amapá, que adiou o primeiro turno das eleições municipais na capital do estado para o dia 06 de dezembro, deu mais tempo de campanha a Josiel Alcolumbre (DEM-AP), primeiro suplente no Senado de seu irmão, o presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Ele concorre à prefeitura de Macapá e tem participações na TV Amazônia Ltda., afiliada ao SBT.

TV Amazônia, em Macapá, pertence a tio de Josiel e Davi Alcolumbre. (Foto: Divulgação)

A emissora faz parte das Organizações José Alcolumbre, que engloba a TV Macapá e as Rádios 99 FM e Jovem Pan News Macapá. A última pesquisa de intenção de votos na capital amapaense, divulgada em 11 de novembro e produzida pelo Ibope, apontou o favoritismo de Josiel, com 26% de intenções de votos válidos. Atrás dele vem a candidata Patrícia Ferraz (Podemos), com 18%. 

Outro candidato oriundo do Congresso é o deputado João Henrique Holanda Caldas, o JHC (PSB), que integra a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Ele foi ao segundo turno na disputa eleitoral para a prefeitura de Maceió, com 28,56% dos votos, pouco atrás de Alfredo Gaspar (MDB), que teve 28,87% dos votos. 

JHC possuí 30% das cotas da empresa Alagoas Comunicações, que tem a concessão de uma TV e cinco rádios. Em uma delas, retransmite a programação da Igreja Internacional da Graça de Deus, do pastor R. R. Soares. O deputado enfrenta um processo de seu concorrente, Alfredo Gaspar, por abuso de poder econômico já que, segundo o candidato, as emissoras do grupo fazem propaganda exclusiva para JHC, sem espaço para concorrentes.

CINCO VICES E SEIS VEREADORES DONOS DE EMISSORAS FORAM ELEITOS

Candidatos a vice-prefeito e às Câmaras Municipais, igualmente donos de meios de comunicação, conquistaram cargos nos municípios. Foram seis no Executivo e cinco no Legislativo. Três deles como os mais votados: Almir da Rádio, por Imaruí (SC), Rafael Amin Hannouche, por Cornélio Procópio (PR) e Vanderlei Rodrigues del Grande, por Borrazópolis (PR).

Fernando Veloso foi autouado pela Justiça por fazer campanha eleitoral antecipada em sua rádio (Foto: Divulgação)

Entre as capitais que tiveram definição já no primeiro turno destaca-se Eduardo Pimentel Slaviero, vice de Rafael Greca, reeleito prefeito de Curitiba. Ele possui cotas não declaradas na CPS Agência de Notícias e teve um parente citado em denúncia de trabalho escravo. Nelson Luís Slaviero, que apareceu na lista suja do trabalho escravo com autuações realizadas entre 2014 e 2016 e divulgada pela ONG Repórter Brasil em 2017.

Nelson manteve dezenove trabalhares em condições análogas à escravidão na Fazenda Planalto, no município de Guaraniaçu (PR). Ele chegou a ser preso, mas liberado após pagar fiança de R$ 400 mil. Em 2016, Nelson foi um dos doadores que elegeram Greca para a capital paranaense. 

Outro vice eleito é Fernando Veloso, por Goiana (PE). Em junho, antes mesmo da campanha eleitoral, Veloso chamou atenção nas redes sociais por usar a Rádio Nova FM, de sua propriedade, para fazer propaganda eleitoral antecipada. Ele foi autuado pela Justiça Eleitoral e, em sua defesa, disse que se tratava do lançamento de seu programa de rádio, chamado “A voz forte de Goiana”. Ele foi obrigado a retirar as campanhas do ar e a pagar multa.   

Ao todo, 65 candidatos a vereador eram também proprietários de meios de comunicação, além de 12 candidatos a vice-prefeitos, como mostrou o observatório antes do primeiro turno: “Sessenta e cinco candidatos a vereador e vice-prefeito são donos de rádios e TVs“.

Sarah Fernandes é repórter do De Olho nos Ruralistas |

Patrícia Cornils é jornalista. |

|| Alceu Luís Castilho é diretor de redação do observatório ||

Foto principal (Divulgação): Entre as emissoras de prefeitos eleitos estão retransmissoras da Globo e do SBT

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