A força da grana e da cana: São Paulo, o centro envergonhado do ruralismo

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Estado concentra financiadores da bancada do agronegócio e foi um dos destaques dos cinco anos do De Olho nos Ruralistas; observatório lançou série e livro sobre FHC e contou que cunhado de Bolsonaro foi condenado, em 2018, por invadir território quilombola

Por Alceu Luís Castilho

As tempestades de poeira no interior paulista mostram o quanto o estado está sujeito aos impactos do clima. E, no entanto, a marcha da grana continua implacável, à margem das recomendações dos cientistas. São Paulo, esse canavial, é a verdadeira locomotiva do agronegócio — com tudo o que ele traz a reboque. Ao longo dos cinco anos do De Olho nos Ruralistas, mostramos alguns dos tentáculos desse atraso, ainda que envernizados pela imagem “moderna” que as empresas e os políticos pretendem passar.

Não à toa, o livro lançado em 2019 pelo observatório, “O Protegido — por que o país ignora as terras de FHC” (Autonomia Literária), fruto de uma série de reportagens publicadas no ano anterior, mostrou que o sociólogo Fernando Henrique Cardoso decidiu dedicar um tempo de sua aposentadoria à gestão de um canavial, em área de mananciais em Botucatu (SP). A história ambiental muito peculiar é acompanhada de conexões empresariais que, no caso específico do ex-presidente, nascido no Rio, a imprensa procura esconder.

Um dos vídeos mais vistos em nosso canal no YouTube, desde 2016, mostrou exatamente esse canavial, quando FHC ainda não tinha retornado à sociedade com os filhos na empresa agropecuária responsável pelo empreendimento:

BOLSONARO E AS MULTINACIONAIS SÃO DUAS FACES DA MESMA DESTRUIÇÃO

Com sede em São Paulo, De Olho tem como uma de suas obrigações revelar o nome de quem patrocina as destruições ambientais no Brasil. E isso passa pelas empresas. Uma das reportagens mais importantes do observatório, publicada também em 2019, mostra que quem financia a bancada ruralista não são apenas fazendeiros atrasados nos confins do país, mas o capital nacional e internacional: “Multinacionais são financiadoras ocultas da Frente Parlamentar da Agropecuária“.

É a Avenida Faria Lima, portanto, quem banca os pacotes de retrocessos socioambientais em Brasília. A cidade onde o paulista Jair Bolsonaro — igualmente bancado por empresários de todo o país — comanda um genocídio e onde o Congresso articula a passagem da “boiada”, as leis contra os ambientes e contra os povos do campo. A imagem de “boiada” foi cunhada por um paulistano muito típico, o ex-ministro do Ambiente Ricardo Salles. Ele também foi objeto de algumas de nossas reportagens: “Ricardo Salles beneficiou Suzano em São Paulo; futuro ministro é acusado de fraude ambiental“.

Esta reportagem sobre São Paulo é a quarta da retrospectiva de cinco anos do De Olho nos Ruralistas. Antes dela, falamos do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná. Ela continuará pelo Sudeste, Nordeste, Norte e Centro-Oeste, ao longo das próximas semanas. Um dos objetivos, além da comemoração do aniversário do observatório, é contar um pouco da história recente do campo no Brasil. Essa é uma história repleta de políticas agressivas e de crimes ambientais.

A série De Olho nos Desmatadores, mais uma em 2019, foi publicada também em The Intercept Brasil e foi capa de CartaCapital. A lista dos maiores multados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) nos últimos 25 anos está repleta de paulistas. “Entre os 25 maiores destruidores, 13 são empresas”, dizia o texto do Intercept. “Onze delas têm capital aberto, listadas na Bovespa”. Ou B3, a bolsa de valores destituída de sua origem geográfica.

Conheça aqui o mapa com os maiores multados do Brasil entre 1995 e 2019: “Mapa mostra, por município, os maiores multados por desmatamento nos últimos 25 anos“. E veja aqui o quanto Ricardo Salles tem o apoio do empresariado nacional; em particular, o paulista.

CUNHADO DO PRESIDENTE INVADIU QUILOMBO NO VALE DO RIBEIRA

Nem sempre a imprensa repercute as revelações da imprensa alternativa. Quantos brasileiros souberam, em 2018, a algumas semanas das eleições, que um cunhado do presidente — casado com Vania Bolsonaro — foi condenado, em setembro daquele ano, por invadir um quilombo no Vale do Ribeira? Confira aqui a reportagem de Leonardo Fuhrmann: “Cunhado de Bolsonaro é condenado por invasão de quilombo no Vale do Ribeira“. Dois anos depois, mostramos uma devastação em área de proteção permanente na mesma região. Com o quê? Com gado.

A conexão de Bolsonaro, em 2018 ainda um candidato, com os quilombos do Vale do Ribeira não era apenas um detalhe eleitoral. Em discurso na Hebraica, no Rio, ele se referira aos quilombolas de forma racista, pesando-os em arrobas. E disse que tinha visitado um quilombo em Eldorado. De Olho nos Ruralistas enviou repórteres à região, que constataram o seguinte: ele não esteve por lá. Confira aqui o relato dos moradores:

NA PARTE MAIS ALTA DA CAPITAL, A VIOLÊNCIA CONTRA O POVO GUARANI

O desprezo do poder político e econômico paulista por povos originários e tradicionais foi um dos temas do observatório nestes cinco anos. Uma das expressões mais emblemáticas dessa história — diretamente relacionada aos 500 anos de desigualdade e violências que caracterizam o país — é o modo como estão confinados Guarani na reserva do Pico do Jaraguá, na capital paulista.

Vejam quem são os donos de um empreendimento que ameaça os indígenas, conforme reportagem publicada no ano passado: “Jorge Paulo Lemann e Itaú estão entre acionistas de construtora que assusta povo Guarani no Jaraguá, em SP“. Empresas com sede em São Paulo estendem suas propriedades ao longo de todo o território nacional. Saiba mais, por exemplo, sobre as terras da família Safra no Mato Grosso. Ou aquelas que Silvio Santos — mais um carioca radicado em São Paulo — obteve durante a ditadura. Ou as terras da ex-namorada do Ayrton Senna no Pará.

Enquanto isso, os indígenas paulistanos sofrem com o confinamento e com as políticas de perpetuação da desigualdade: “Com fogo e sem água: indígenas de SP sofrem com Covid-19 e abastecimento desigual“.

Indígena combate fogo na TI Jaraguá. (Foto: Felipe Beltrame/Mídia Ninja)

Em meio às violências, os leitores do De Olho puderam também conhecer histórias paulistas de resistência dos povos do campo. Como esta: “Mulheres da Terra Indígena Araribá, em São Paulo, se unem para fortalecer a defesa do território“. E quem imaginaria que um velho companheiro de Chico Mendes está no interior paulista, na região de Franca, em um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)? “Pedro Rocha, assentado em Restinga (SP): ‘Fui jantar com o Chico Mendes, em 88, e ele morreu no meu braço’“.

GOVERNO TEMER ANTECIPOU DESTRUIÇÃO CONSOLIDADA NA ERA BOLSONARO

Política e economia caminham juntos. O último presidente da República também era paulista e teve apoio de toda essa turma para chegar ao poder, com o impeachment de Dilma Rousseff. Este observatório surgiu em 2016 sob o signo do golpe. E, até a eleição de Bolsonaro, mostrou em detalhes como o governo de Michel Temer iniciou a implosão dos direitos ligados ao ambiente e aos povos do campo: “Dossiê detalha estratégias e ações do governo Temer em prol dos ruralistas“; “Governo Temer ameaça direito à alimentação, diz relatório“.

A atenção necessária aos movimentos em São Paulo continuará no restante do governo Bolsonaro. E ao longo de qualquer governo eleito no Brasil, tenha ele ou não um mandatário paulista. A atual Esplanada dos Ministérios, por exemplo, tem à frente do Ministério do Meio Ambiente, como sucessor de Ricardo Salles, outro paulista, Joaquim Pereira Leite, um quatrocentão.

E se não chove no interior paulista, que tal provocar chuvas artificiais em São Paulo? Pelo menos essa foi a ideia da Ambev, uma das maiores empresas brasileiras, durante o carnaval de 2020: “Ambev diz que vai ‘fazer chover’ fora da cidade para não molhar foliões em SP“.

Nos próximos cinco anos, De Olho nos Ruralista não vai fazer chover. Mas continuará a contar histórias de violência sem esquecer — como muitas vezes faz a imprensa comercial no Brasil — das impressões digitais do poder econômico. E isso passa diretamente pelo estado de São Paulo.

Em tempo: o prefeito paulistano possui terras em Minas. É para lá que vamos, no próximo texto desta retrospectiva: “Ricardo Nunes possui nove fazendas em Minas, duas delas por usucapião“.

Alceu Luís Castilho é diretor de redação do De Olho nos Ruralistas. |

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