JBS tem centralidade no lobby ruralista em Brasília

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Cinco anos após ser investigada na Operação Carne Fraca, empresa volta a ter acesso livre no Ministério da Agricultura, com 75 reuniões desde janeiro de 2019; grupo lidera cadeia de financiamento ao Instituto Pensar Agro, com sete filiações em associações ruralistas

Por Larissa Linder

Clique para acessar o relatório na íntegra.

Qual o papel da JBS na aprovação da “boiada” no Congresso? O dossiê “Os Financiadores da Boiada: como as multinacionais do agronegócio sustentam a bancada ruralista e patrocinam o desmonte socioambiental“, publicado na semana passada pelo De Olho nos Ruralistas, revela a participação de empresas globais no financiamento ao Instituto Pensar Agro (IPA), o cérebro pensante por trás da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). A multinacional brasileira, associada anos atrás à corrupção, tem um papel de destaque nessa história.

Criado em 2011 com o propósito de prestar assessoria técnica na formulação de pautas legislativas para a FPA, o IPA é mantido com as verbas mensais pagas por 48 organizações de classe do agronegócio, que congregam 1.078 empresas e mais de 69 mil associados individuais. Com as contribuições, o instituto organiza as demandas da cadeia agropecuária brasileira junto ao Legislativo, Executivo e Judiciário, intermediando o contato de empresas e associações com parlamentares e representantes do governo.

O levantamento realizado pelo observatório mostra que apenas um time seleto de empresas possui influência nas decisões do IPA. Uma dessas companhias é o frigorífico brasileiro JBS, o maior produtor de proteína animal do mundo. A empresa é filiada a sete organizações que financiam o Pensar Agro: as associações brasileiras do Agronegócio (Abag) e de Proteína Animal (ABPA), das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), de Óleos Vegetais (Abiove), de Alimentos (Abia) e de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo), além do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações).

A empresa dos irmãos Wesley e Joesley Batista possui ligações mais fortes com a Abiec. A associação, que congrega os 40 maiores frigoríficos do país, é presidida por Antônio Jorge Camardelli, ex-diretor de estratégia empresarial da JBS e membro da diretoria do IPA. Além disso, a JBS lidera o conselho diretivo da entidade.

JBS lidera ranking em número de filiações às entidades do IPA. (Imagem: De Olho nos Ruralistas)

APÓS ESCÂNDALO DA ‘CARNE FRACA’, EMPRESA PRESSIONA POR AUTOCONTROLE

Além de liderar o levantamento de filiações às associações mantenedoras do IPA, a JBS ocupa o segundo lugar entre as empresas mais recebidas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), registrando 75 reuniões entre janeiro de 2019 e junho de 2022. Ela fica atrás apenas da agroquímica sino-suíça Syngenta, com 81 encontros.

O frigorífico possui interesse direto na aprovação do PL 1293/21, em tramitação no Senado, que estabelece o “autocontrole” de empresas privadas para defesa agropecuária. O projeto foi tema de ao menos três reuniões. Também figuram entre as pautas ao menos sete “visitas de cortesia”.

JBS pressionou Mapa por projeto de autocontrole. (Foto: Divulgação/Seara)

A JBS ainda manteve encontros para tratar de um incidente de vazamento de amônia ocorrido em fevereiro de 2021, em uma unidade do frigorífico em Pimenta Bueno (RO). Na época, a carne contaminada com o gás foi destinada à comercialização, sendo apreendida em uma rodovia no estado de São Paulo, pouco antes de chegar às gôndolas. A empresa responde a um processo sobre o caso no Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia e é investigada pelo Ministério da Justiça.

Em 2017, o frigorífico esteve entre as empresas investigadas durante a Operação Carne Fraca, que apurou o pagamento de propinas a fiscais agropecuários do Mapa com o propósito de liberar a venda de produtos adulterados e carnes vencidas. Na época, um executivo da Seara, pertencente ao grupo JBS, foi indiciado pela Polícia Federal. O médico-veterinário Flávio Cassou chegou a ser preso no Paraná, mas foi solto após acordo de delação premiada, em dezembro do mesmo ano.

O aumento de casos de fraudes sanitárias é uma das principais queixas da sociedade civil em relação ao projeto do “autocontrole” defendido pelo setor frigorífico. “Que confiabilidade você vai ter num atestado feito por um [agente] privado dizendo que a carne não está contaminada?”, questiona a a cientista política Suely Araújo, especialista em políticas públicas do Observatório do Clima e presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) entre 2016 e 2018. “E o pequeno agricultor, como ele vai pagar por esses laudos? Mas na narrativa parece que o projeto de lei é moderno, que é um novo mundo, e isso não é verdade”.

JBS FOI RECEBIDA QUATRO VEZES POR EX-MINISTRA

A ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (2019-2022) recebeu membros da empresa em ao menos quatro ocasiões. Ex-presidente da FPA, ela pertence a uma longa linhagem de latifundiários da região Centro-Oeste e guarda relações diretas com a JBS.

A deputada Tereza Cristina foi procuradora da sua mãe em negócio com a JBS. (Foto: Facebook)

Ela tinha, desde 2010, uma dívida de R$ 14 milhões oriunda do arrendamento de uma propriedade pertencente à sua mãe, a pecuarista Maria Manoelita Corrêa da Costa. O valor foi quitado em agosto de 2019, pelo fazendeiro sul-mato-grossense Rodolfo Paulo Schlatter, um aliado político de Tereza Cristina, que obteve mais de 50% de desconto do pagamento ao frigorífico. Durante sua passagem pela Secretaria de Desenvolvimento Agrário e Produção de Mato Grosso do Sul, ela concedeu incentivos fiscais à JBS.

Como esclarece o dossiê, a atividade de lobby, embora não regulamentada no Brasil, não é ilegal. Sua problemática está relacionada à falta de transparência, assimetria de poder, entre outros aspectos. Da mesma forma, não é incomum ou ilegal que o setor privado se reúna com membros do governo, mas a frequência desses encontros e as esferas hierárquicas envolvidas denotam quem possui maior poder de barganha.

Em resposta aos dados, o frigorífico informou que “participa de várias associações e entende que é importante contribuir para o debate pelo desenvolvimento do setor”. “Como parte desse diálogo, se reúne também com autoridades públicas sempre conforme as legislações em vigor”, prossegue a nota. Sobre sua participação no IPA, a JBS informa que as questões a respeito da atuação do instituto “devem ser encaminhadas às entidades que [o] financiam”.

NOS EUA, JBS FINANCIA NEGACIONISTAS DO CLIMA

Nos Estados Unidos, a multinacional brasileira financia negacionistas da crise climática. A empresa registrou em 2021 o maior gasto com lobby nos últimos catoreze anos, em meio ao escrutínio que sofre do Congresso americano por práticas comerciais irregulares.

Segundo dados compilados pela organização Open Secrets, a empresa gastou US$ 794 mil — algo em torno de R$ 4,2 milhões — com lobby no ano passado, 45% a mais que em 2020 e maior valor desde 2007.

Em julho, o The Intercept revelou que, nos EUA, a companhia financia políticos negacionistas do aquecimento climático. No ciclo eleitoral de 2019-2020, R$ 815 mil foram doados por indivíduos ligados à JBS para financiar políticos nos Estados Unidos. Segundo a reportagem, entre os 10 políticos mais beneficiados, apenas dois reconhecem a mudança climática e o papel da humanidade no aquecimento global.

Foto principal (Marcelo Camargo/Agência Brasil): Tereza Cristina teve Sérgio Moro como colega em governo marcado por discurso “contra a corrupção”

| Larissa Linder é jornalista. |

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