36 acusados de crimes socioambientais doaram R$ 10,7 milhões para campanha de Bolsonaro

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Das 88 pessoas que, segundo o TSE, contribuíram com valores superiores a R$ 100 mil para a campanha do candidato à reeleição, 67 têm ligação com o agronegócio; 54% delas está envolvida em casos de grilagem, desmatamento, violência no campo ou trabalho escravo

Por Tonsk Fialho, Larissa Linder, Katarina Moraes e Mariana Franco Ramos

O presidente Jair Bolsonaro (PL) recebeu pelo menos R$ 10,7 milhões em doações de fazendeiros e executivos do agronegócio acusados de crimes socioambientais. São casos públicos de grilagem, desmatamento, sobreposição em terra indígena, violência rural e até trabalho escravo.

O levantamento, exclusivo do De Olho nos Ruralistas, é subdimensionado, uma vez que leva em conta apenas as 88 pessoas físicas que, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), contribuíram com quantias superiores a R$ 100 mil para tentar reeleger o capitão. Dessas, 67 têm ligação explícita com o setor, o que corresponde a 78%.

Mais da metade dos grandes doadores bolsonaristas do agronegócio — 36 de 67 — possui no currículo algum tipo de infração contra o ambiente ou os povos do campo. No infográfico abaixo, listamos os maiores, em valores. A consolidação dos dados finais da pesquisa desconsidera outros possíveis ilícitos, como sonegação, fraude em licitações e o cada vez mais frequente assédio eleitoral.
Levantamento tem como base prestação de contas feita ao TSE. (Imagem: De Olho nos Ruralistas)

FINANCIAMENTO TEM ORIGEM NA EXPLORAÇÃO DE MÃO DE OBRA

No topo da lista está Hugo de Carvalho Ribeiro, cunhado de Blairo Maggi e sócio da Amaggi, com R$ 1,2 milhão. A companhia do ex-ministro da Agricultura é investigada por desmatamento. De acordo com a Polícia Federal (PF), o fundador, André Antônio Maggi, esteve à frente de um episódio de escravidão moderna no município de Aripuanã, no noroeste de Mato Grosso, a 949 quilômetros da capital: “Pai de Blairo Maggi escravizou trabalhadores nos anos 80, diz relatório da PF“.

A empresa de Sedeni Locks, irmão de Itamar Locks, outro sócio da Amaggi, possui sobreposição de mais de 4 mil hectares na Terra Indígena Manoki, também no Mato Grosso. O Greenpeace acusa a Fazenda Membeca, de Sedeni Lucas Locks — de onde foram resgatados três trabalhadores da escravidão  —  de invadir ilegalmente áreas dos Manoki para expansão de sua produção de soja. As multinacionais Bunge e Cargill compravam a produção.

Cornélio Sanders: várias homenagens no mundo do agronegócio. (Imagem: Reprodução)

Fundador e mandatário do Grupo Progresso, que atua no cultivo de soja e milho, Cornélio Adriano Sanders é outro com acusação de exploração de mão de obra nas costas. Ele doou R$ 1 milhão para a campanha de Bolsonaro. Fiscais relataram ter encontrado, na fazenda da empresa, em Sebastião Leal (PI), vasilhames de produtos químicos usados para armazenar a água destinada ao consumo dos trabalhadores. Eles apontaram alojamentos, sanitários e cozinha em situação irregular, além de jornadas excessivas.

Sanders foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) em 2006. Conforme o órgão, botas e ferramentas de trabalho eram vendidas aos funcionários a um custo exorbitante. Em nota, o grupo negou a existência de qualquer irregularidade.

O histórico controverso não impediu a Aprosoja e o Canal Rural de escolherem a propriedade da família Sanders, de 36 mil hectares de lavoura, para realizar a abertura nacional da colheita de soja de 2022: “Fazenda onde foi feita abertura da colheita de soja já teve flagrante de trabalho escravo“.

DOADORES SÃO CÚMPLICES NA DESTRUIÇÃO

Onde tem agronegócio tem grilagem. Darsi Fritzen, que contribuiu com R$ 600 mil, administra a Fazenda Alvorada, em Gilbués, no Sul do Piauí, ao lado dos filhos. Conforme o dossiê “Na Fronteira da (I)Legalidade: Desmatamento e grilagem no Matopiba”, da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, eles se apropriaram ilegalmente de terras públicas devolutas na Chapada do Riachão, à margem direita do rio, a partir do registro irregular dos imóveis.

Pecuarista entrega óleo ungido ao presidente. (Foto: Reprodução/RGTNews)

Os financiadores também são cúmplices na destruição. O produtor de grãos Oscar Luiz Cervi já foi autuado em R$ 1.463.400,00 por crime contra a flora em Bom Jesus (PI) e São José do Xingu (MT). Ele doou R$ 1 milhão para o candidato à reeleição. Suas principais empresas estão sediadas em Campo Novo do Parecis (MT) e Coxim (MS).

Presidente do Grupo Ferroeste, Ricardo Carvalho Nascimento chegou a ser preso no Espírito Santo por compor a “máfia do carvão”. A atuação da empresa, que “investiu” R$ 501 mil em Bolsonaro, é marcada por crimes ambientais, denúncias de trabalho escravo e empreendimentos clandestinos.

O pecuarista mato-grossense Celso Gomes dos Santos, conhecido como “Rei do Gado”, repassou meio milhão à campanha. Dono de fazendas em Rondonópolis (MT), Itiquira (MT) e Alta Floresta (MT), ele foi autuado em R$ 552 mil por crimes contra a flora, de 2014 a 2020. Foi condenado, ainda, pela 8ª Vara da Justiça Federal, em Cuiabá, no âmbito da Operação Sanguessuga, por “inflacionar” equipamentos hospitalares quando era prefeito de Nova Marilândia. Em maio, num encontro de pecuaristas, Santos presenteou o presidente com óleo ungido em Jerusalém.

CONTRIBUIÇÕES EXPÕEM FORÇA DO LOBBY DO SETOR

Dossiê mostra participação de gigantes da cana em lobby ruralista.

Sojeiros, madeireiros, pecuaristas, usineiros e comerciantes de equipamentos agrícolas, entre outros doadores de Jair Bolsonaro, têm interesse direto na aprovação de pautas defendidas pelo presidente, como as que constituem o “Pacote da Destruição” — PL da Grilagem, PL do Veneno, PL do Licenciamento Ambiental e PL da Mineração em Terras Indígenas.

No dossiê “Os Financiadores da Boiada“, mostramos que esses projetos não saíram da mente inspirada dos deputados e senadores integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a faceta mais organizada da bancada ruralista no Congresso. São, sim, fruto de um lobby muito bem articulado. Durante o governo Bolsonaro, empresas do setor se reuniram pelo menos 278 vezes com membros do alto escalão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Apesar do claro alinhamento do governo com o agronegócio, o apoio milionário não veio automaticamente. Coube ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o Zero Um, arregimentar doadores. No final de agosto, o filho mais velho do presidente percorreu 1.600 quilômetros na região Centro-Oeste com o chapéu na mão. Um dia após a peregrinação, a campanha acrescentava R$ 390 mil em doações e os valores continuaram crescendo.

Na campanha eleitoral de 2018, apenas duas pessoas doaram mais de R$ 10 mil a Bolsonaro: o ex-secretário-geral da Presidência da República Gustavo Bebianno e o usineiro paranaense Serafim Meneghel, ambos já falecidos. 

| Larissa Linder, Katarina Moraes e Mariana Franco Ramos são jornalistas. |

|| Tonsk Fialho é estudante de Direito na UFRJ e pesquisador, com foco em sindicatos e movimentos sociais. ||

Imagem principal (José Cruz/Agência Brasil): Bolsonaro conseguiu arrecadar mais de R$ 9 milhões entre os empresários do agronegócio.

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