De Olho nos Ruralistas atualizou a pesquisa sobre artistas mais contratados por prefeituras e governos estaduais; dados até 30 de junho de 2026 mostram que as cem bandas com mais contratos por inexigibilidade de licitação tiveram um salto de R$ 1,5 bilhão em apenas um trimestre
Por Alceu Luís Castilho e Bruno Stankevicius Bassi
R$ 6,52 bilhões. Esse é o valor recebido pelas cem bandas mais contratadas por prefeituras e governos estaduais para shows realizados em 2024, 2025 e — no caso dos contratos firmados no primeiro semestre — 2026. A soma ultrapassa o orçamento destinado ao Ministério da Cultura em 2026, considerando todas as manifestações artísticas do país.

Esses dados integram a primeira atualização do dossiê “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio” e foram apresentados em uma live nesta quinta-feira (17), no canal do De Olho nos Ruralistas no YouTube. Clique aqui para assistir.
Publicado em julho, o relatório trazia os shows feitos em 2024 e 2025, mais aqueles contratados até o primeiro trimestre de 2026. Até o dia 31 de março, as cem bandas mais contratadas pelo poder público somavam R$ 5 bilhões. Em apenas três meses, nossa equipe de pesquisa identificou mais R$ 1,5 bilhão em verbas destinadas para apresentações desse top 100.
Com a atualização dos dados, a lista de artistas mais contratados passa a abranger um universo de 18.097 contratos firmados até 30 de junho de 2026. Foram incluídos ainda centenas de shows disponíveis em bases de dados que estavam incompletas — ou inacessíveis — até a data de publicação do dossiê, como a do Tribunal de Contas do Estado do Piauí.
As novas informações confirmama concentração de verbas públicas nas mãos das produtoras Camarote Shows, Vybbe, Top/Tapajós, Full e M&P. Com a adição do segundo trimestre, que inclui a temporada de festejos juninos, o observatório constatou que 37 entre as 100 bandas mais contratadas pertencem a esse G-5. Juntas, essas bandas receberam, desde 2024, R$ 3,02 bilhões dos R$ 6,52 cachês pagos com dinheiro público.
Fundada pelo cantor-empresário Wesley Safadão, a Camarote lidera com R$ 1,21 bilhão acumulados em dois anos e meio. Galinha dos ovos de ouro da produtora, o sergipano Natanzinho Lima continua à frente do levantamento, agora com R$ 206 milhões — R$ 47,5 milhões a mais em relação aos dados publicados em julho. Ele é seguido por Henry Freitas, da Full, com R$ 157 milhões, e pelo próprio Safadão, que chegou à marca dos R$ 150 milhões. Agora, são 17 artistas que superam a marca dos R$ 100 milhões cada em contratos públicos. Antes, eram apenas oito.
Confira abaixo, no carrossel, a lista dos 40 artistas mais contratados para shows em 2024, 2025 e, no caso dos contratos até junho, 2026:
OBSERVATÓRIO PUBLICARÁ ATUALIZAÇÕES PERIÓDICAS DOS DADOS
A atualização do dossiê Farras com o primeiro semestre de 2026 é a primeira de uma série de lançamentos ligados à editoria De Olho no Dinheiro. Ao longo dos próximos meses, continuaremos publicando textos, vídeos e lives, no site e nas redes sociais, destrinchando as informações mais relevantes da pesquisa. O objetivo? Fornecer um olhar especializado — e territorial — sobre os gastos públicos, indo além do que a mídia corporativa costuma cobrir. Antes, durante e depois das eleições de outubro.

Nas próximas semanas, publicaremos um novo conjunto de dados sobre emendas parlamentares, mostrando como esses recursos vêm beneficiando as bases eleitorais e concentrando os gastos com cultura nas mãos de um punhado de empresas. Em março de 2027, já com os dados completos do ano corrente, lançaremos uma plataforma interativa onde o leitor poderá pesquisar os valores gastos pela prefeitura de cada município com os mega shows.
Com isso, pretendemos ir além das análises rasas, expondo as entranhas do mercado de shows públicos e suas pegadas territoriais. Às custas de quem esses gastos são realizados? Quais prefeitos gastaram mais? E os governadores eleitos em 2026, continuarão destinando milhões de reais do contribuinte para as festas do agronegócio? E os artistas regionais, onde ficam nessa história?
Os dados apresentados ontem (17) na live do projeto Farras mostram a dominância de gêneros que celebram o setor agropecuário. O piseiro, intimamente ligado às vaquejadas, domina as primeiras posições da lista, enquanto o sertanejo se multiplica nas posições abaixo do top 40. Eles são seguidos pelo arrocha e pelo forró romântico. Axé, pagodão baiano, eletrônico e gospel aparecem de forma pontual na lista, com um artista cada.
No carrossel abaixo, o leitor poderá conferir os nomes dos artistas que completam o top 100, da 41ª posição em diante:
EQUIPE DE JORNALISTAS E PESQUISADORES DISCUTIU IMPACTO ELEITORAL DOS SHOWS
Dinheiro público, grandes shows e eleições: o que as novas contratações reveladas pelo De Olho nos Ruralistas podem nos contar sobre esse circuito em ano eleitoral?
Esse foi o tema de uma live transmitida ontem (17) no canal do observatório no YouTube. Ao longo de 4h30, a equipe do De Olho apresentou dados atualizados sobre cada um dos artistas que compõem o top 100 do projeto Farras, aprofundando a investigação sobre os recursos públicos destinados a grandes apresentações pelo Brasil e as relações políticas por trás desses contratos.
Um show não é só um show. Por trás de muitas das apresentações identificadas pela pesquisa há uma cadeia de conexões que envolve prefeitos, governadores, artistas e empresários. E candidatos às eleições de outubro.
É o caso de Wesley Safadão, dono da Camarote Shows. Ele possui uma relação de longa data com o deputado federal Júnior Mano (PSB-CE), que intermediou uma reunião do cantor no Ministério da Fazenda, em Brasília, com o então ministro Fernando Haddad e Regis Anderson Dudena, que ocupava o cargo de Secretário de Prêmios e Apostas. O encontro foi articulado pelo senador Cid Gomes (PSB-CE), que disputa a reeleição tendo Júnior Mano como 1º suplente.
Essa é apenas uma entre dezenas de histórias que contamos durante a live. Confira abaixo em nosso canal:
| Alceu Luís Castilho é diretor de redação do De Olho nos Ruralistas. |
|| Bruno Stankevicius Bassi é coordenador de pesquisas do observatório. ||
Imagem principal (De Olho nos Ruralistas/Reprodução)
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