FHC, o Fazendeiro – Antes de falir, Grupo Espírito Santo aliou-se a Jovelino Mineiro em Botucatu

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Portugueses estiveram entre financiadores de primeira hora da Fundação FHC; amigo de Fernando Henrique foi sócio da família Espírito Santo também no Terra Viva, da Band

Por Alceu Luís Castilho

Artífice do jantar que angariou fundos para o início da Fundação FHC, em 2002, o pecuarista Jovelino Carvalho Mineiro Filho associou-se a um dos grupos representados naquela noite no Palácio da Alvorada. Entre os empresários presentes estava o português Ricardo Espírito Santo Salgado, do agora falido Grupo Espírito Santo. Jovelino e o GES foram sócios de uma empresa agropecuária em Botucatu (SP).

Ricardo Salgado. antes de ser preso. (Foto: Reprodução)

Esta história é intrincada e complexa. De um lado, Fernando Henrique Cardoso e um dos principais membros da família Espírito Santo: Ricardo Salgado, preso na França em 2014 a caminho da Suíça. De outro, um dos principais amigos de FHC – Jovelino Mineiro, chamado por ele de Nê – formando sociedade com outros integrantes da família portuguesa, naqueles tempos dona de 165 mil hectares no Brasil e no Paraguai.

As atividades do grupo foram de bancos às telecomunicações (Portugal Telecom, Vivo), passando pelas propriedades rurais. Entre elas, um latifúndio de 12 mil hectares em Botucatu (SP), município onde – a alguns quilômetros de distância – Jovelino Mineiro e os filhos de Fernando Henrique Cardoso possuem outras fazendas, nas margens do Rio Pardo: “FHC, o Fazendeiro – Fazenda da família de Fernando Henrique em Botucatu (SP) é um canavial sem casa e sem cercas”.

Em que momentos (como o financiamento da Fundação Fernando Henrique Cardoso) esses personagens se cruzam?

Tentemos acompanhar o enredo cronologicamente.

FHC RECEBE RICARDO ESPÍRITO SANTO

Dezembro de 1996. Fernando Henrique Cardoso tem vários despachos internos no Palácio do Planalto. Recebe o presidente do Banco Espírito Santo, “lá de Portugal”, Ricardo Espírito Santo Salgado. “Para a surpresa de todos nós, quer vir para cá e investir no Banespa”, narra o sociólogo no primeiro volume dos “Diários da Presidência”. “Será uma boa coisa se realmente for possível efetivar algo nessa direção”.

Fernando Henrique por ele mesmo, nos “Diários da Presidência. (Foto: Reprodução)

Outubro de 1997. Fernando Henrique recebe novamente Ricardo Espírito Santo. O português estava acompanhado de Olavo Monteiro de Carvalho, do grupo Monteiro Aranha. Ambos haviam comprado (com os franceses do Crédit Agricole) o Banco Boa Vista, da família Paula Machado, por R$ 1. “Os portugueses estão entrando firme no Brasil”, analisa o presidente nos “Diários da Presidência” – agora em seu segundo volume.

Ainda em 1997. Jovelino Mineiro Filho importa do paraguaio Guillermo Caballero Vargas – é o próprio pecuarista brasileiro quem conta, no site da sua Fazenda Sant’Anna – um plantel de gado Brahman, “junto com o amigo Miguel Espírito Santo”.

Junho de 1999. A exposição “Arte de um Restauro”, produzida pela Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, é apresentada na galeria do Espaço BNDES. Ela traz fotos da recuperação do Convento de Santo Antônio de Igarassu, em Pernambuco. O relatório do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social, no ano seguinte, reproduz as fotos da exposição.

PERDEM O BANCO, FICAM AS FAZENDAS

Maio de 2000. O controle do Banco Boa Vista é transferido para o Bradesco. O Grupo Espírito Santo passa a ser o terceiro maior acionista do banco controlado por Lázaro Brandão. E o maior acionista estrangeiro. Em paralelo, os portugueses ficam com as propriedades rurais que eram da família Paula Machado.

Uma referência em Botucatu. (Foto: Reprodução)

Dezembro de 2001. A empresa Botucatu Citrus S.A., localizada na Fazenda Morrinhos (que era dos Paula Machado), faz uma assembleia geral. O presidente é Miguel Abecassis Espirito Santo Silva, representando a Companhia Agrícola Botucatu.

Outubro de 2002. Fernando Henrique Cardoso, Grão-Mestre da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, admite, no dia 25, algumas personalidades estrangeiras como Grandes-Oficiais da Ordem. Entre elas, Maria João Espírito Santo Bustorf Silva, do Conselho Diretivo da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, prima de Ricardo Espírito Santo Salgado. É a quinta condecoração dela no governo FHC.

Dezembro de 2002. Jovelino Carvalho Mineiro organiza jantar com empresários no Palácio da Alvorada, no poente do governo Fernando Henrique. Motivo: angariar fundos para o Instituto Fernando Henrique Cardoso – hoje Fundação FHC. Entre os comensais, Lázaro Brandão e Ricardo Espírito Santo Salgado. Cada empresário se compromete a doar R$ 500 mil.

SÓCIOS TAMBÉM NO LATIFÚNDIO MIDIÁTICO

Jovelino e um dos Espírito Santo: sócios. (Imagem: Reprodução/De Olho)

Julho de 2003. É criada a Agriways, uma sociedade entre Jovelino Mineiro e (representando a holding Rioforte, do Grupo Espírito Santo) Ricardo Abecassis do Espírito Santo. Dos 12 mil hectares originais da Companhia Agrícola Botucatu, a Agriways ficou com 8 mil hectares (para plantar cana e, principalmente, eucalipto). O Grupo Espírito Santo continuou controlando os 4 mil hectares restantes da Companhia Agrícola – destinados ao eucalipto e à citricultura, esta última em parceria com o grupo Louis Dreyfus. O vice-presidente do Conselho de Administração da Agriways era Ricardo Abecassis, primo de Ricardo Salgado. Ele também era diretor da empresa Esap Brasil, dona de 10% das ações do canal Terra Viva, da Band.

Outubro de 2003. Jovelino Mineiro e Miguel Espírito Santo são eleitos para o Conselho Fiscal da Associação Brasileira de Hereford e Bradford – raças bovinas. Eles também fizeram parte, nos últimos anos, de diretorias da Associação dos Criadores de Brahman.

Novembro de 2003. Jovelino Mineiro e o Grupo Espírito Santo – por meio da Esap Brasil Agropecuária – criam a empresa responsável pelo canal do agronegócio Terra Viva (inaugurado em 2005), com o nome jurídico de Companhia Rio Bonito Comunicações. Os demais sócios são outros pecuaristas e os donos da Band. Jovelino e Band possuem, juntos, mais da metade das ações: “FHC, o Fazendeiro – Imprensa: Jovelino Mineiro foi um dos fundadores do canal Terra Viva, da Band”.

NO BRASIL E NO PARAGUAI, MEGA LATIFÚNDIOS

Agosto de 2006. A revista Dinheiro Rural conta que a GES Agro-pecuária, dirigida por Miguel Espírito Santo, explorava 160 mil hectares no Brasil e no Paraguai. Entre as propriedades, duas na Bahia, uma de 20 mil hectares no Tocantins e 12 mil hectares na Fazenda Morrinhos, em Botucatu – terras que eram da família Paula Machado e que, décadas antes, somavam 47 mil hectares. Faturamento anual do grupo com negócios rurais: US$ 20 milhões.

Março de 2011. O grupo holandês CRV adquire a Central Bela Vista, de Jovelino Mineiro,  localizada em Pardinho (SP), município vizinho de Botucatu. O diretor da Bela Vista era Maurício Nabuco – gerente de outras empresas do pecuarista.

Notícia enumera quem esteve nos 80 anos de FHC. (Imagem: Reprodução/De Olho nos Ruralistas)

Junho de 2011. Fernando Henrique Cardoso, presidente da Fundação Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), comemora seus 80 anos na Sala São Paulo. “Uma noite para meus amigos”, define FHC. Entre os amigos presentes está Ricardo Abecassis Espírito Santo, acompanhado da mulher Stella. Na mesma festa, Marcelo Odebrecht e os dois principais donos do Terra Viva: Johnny Saad, da Band, e Jovelino Mineiro, sócio de Ricardo na Agriways.

Janeiro de 2012. O Relatório 2011 de Sustentabilidade da Rioforte confirma (com pequena variação da informação de cinco anos antes): Grupo Espírito Santo possui 165 mil hectares no Brasil e no Paraguai. Outras fontes mostram que eram cerca de 30 mil no Brasil (São Paulo e Tocantins), o restante no país vizinho.

Janeiro de 2012. Famílias sem-terra ocupam um galpão na Fazenda Morrinhos, pertencente à Agriways.

Novembro de 2012. O tucano Xico Graziano utiliza sua coluna no Estadão para reclamar de multas contra a Fazenda Morrinhos – parceria entre Jovelino Mineiro e os portugueses. Elas somam R$ 3 milhões. Motivo: queima de 217 hectares. Secretário do Meio Ambiente entre 2007 e 2010, ele é o coordenador do Observador Político, um veículo ligado à Fundação FHC destinado a promover o pensamento de Fernando Henrique Cardoso.

Janeiro de 2014. Jovelino Mineiro (chamado por FHC de Nê) e o filho Bento Mineiro criam a Agrícola Ribeirão do Atalho. Com sede inicialmente em Osasco (no mesmo endereço contábil que a Goytacazes, da família FHC), mas atuação em Botucatu. Atividade econômica principal naquele ano: cultivo de cana de açúcar. Hoje: pecuária. Capital social: R$ 42 milhões.

Junho de 2014. Ricardo Espírito Santo Salgado é preso em Portugal, em operação que investiga o maior esquema de lavagem de dinheiro da história do país. O Grupo Espírito Santo entra em colapso.

CANAL TERRA VIVA DEFENDE FAZENDA DE JOVELINO

Agosto de 2014. É fechada a Agriways, substituída pela empresa AGW Empreendimentos e Participações – mais uma na Fazenda Morrinhos. Mas ela se cinde entre Agrícola Ribeirão do Atalho – de Jovelino Mineiro – e a própria AGW, agora da gigante sucroalcooleira Cosan. Atividade principal da AGW, cultivo de eucalipto. Capital social, R$ 42 milhões. Seu diretor, Colin Butterfield – um dos fundadores do Movimento Vem Pra Rua, junto com Rogério Chequer: “Líder de Vem Pra Rua sai da Cosan para investir em ativos florestais pela Universidade de Harvard”.

Maurício Nabuco defende empresa de Jovelino no Terra Viva. (Reprodução/YouTube)

Setembro de 2015. O diretor da Fazenda Morrinhos (pela Agrícola Ribeirão do Atalho), Maurício Nabuco, ganha uma reportagem de 9 minutos no canal Terra Viva para reclamar das cinco multas por incêndio lavradas contra a Agriways pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente. No vídeo é possível ver que a fazenda, no acesso para a parceira Eucatex, possui exatamente 7.885 hectares – cerca de 5% do território de Botucatu. A empresa responsabiliza o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) pelo incêndio.

Outubro de 2015. A Louis Dreyfus Commodities Agroindustrial S.A. move ação contra a Companhia Agrícola Rio Forte e a Janus Brasil Participações Ltda. Motivo: a empresa firmara parceria com a Companhia Agrícola Botucatu (CAB), relativa à Fazenda Morrinhos, com preferência para compra. Mas a venda das ações para o fundo de investimentos Janus significava, na prática, transferência para a concorrente Cosan – que, desde abril, já colocava a CAB e a AGW Empreendimentos e Participações na lista de suas propriedades agrícolas.

MUITO ALÉM DE BOTUCATU

Dezembro de 2016. O Ministério Público de Portugal arresta bens da Rioforte, do Grupo Espírito Santo. Os ativos agropecuários em Botucatu somavam R$ 112 milhões. Os de Tocantins, produção de arroz e soja em nome da Companhia Brasileira Agropecuária (Cobrape), R$ 53 milhões. Um jornal português observava, em 2015, que os bens já tinham sido vendidos.

Maio de 2018. A Agrícola Ribeirão do Atalho, de Jovelino e Bento Mineiro, continua atuante em Botucatu. Do outro lado da Rodovia Castelo Branco, no rumo para Pardinho, a Central Bela Vista – empresa que pertencia a Jovelino Mineiro – foi vendida para um grupo holandês. As terras da nova sede da Bela Vista são contíguas às da Goytacazes Participações, onde Fernando Henrique Cardoso já foi sócio – hoje ela pertence somente aos irmãos Beatriz, Luciana e Paulo Henrique Cardoso.

Leia mais sobre as terras da família FHC em Botucatu: “FHC, o Fazendeiro – Fazenda da família de Fernando Henrique em Botucatu (SP) é um canavial sem casa e sem cercas“.

LEIA A SÉRIE COMPLETA:
“FHC, o Fazendeiro – tudo sobre as terras da família, os amigos pecuaristas e a Odebrecht”.

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3 commentsOn FHC, o Fazendeiro – Antes de falir, Grupo Espírito Santo aliou-se a Jovelino Mineiro em Botucatu

  • MARCELO RATES RONCATO

    Esta família de portugueses tinha grandes investimentos em ferrovias em Angola,antes da revolução. Também são sócios do Txai Resort e condômínio em Itacaré/Bahia onde Sr. Pedro Parente também tem propriedades, ou seja um grande clube.

  • E a fazenda de Tocantins o que aconteceu?

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