Dona de restaurante onde Bolsonaro gastou R$ 109 mil de uma vez em cartão é servidora da Saúde

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Roberta Silva Rizzo é irmã da ex-secretária de Trabalho e Bem-Estar de Roraima e foi nomeada durante a gestão Anchieta; valor pago pela comitiva de Jair Bolsonaro em outubro de 2021 é 23 vezes superior ao salário que a servidora recebia no Hemocentro, em Boa Vista  

Por Alceu Luís Castilho e Bruno Stankevicius Bassi

A revelação dos gastos com cartões corporativos de Jair Bolsonaro, publicada ontem (12/1) pela plataforma Fiquem Sabendo, trouxe à tona o nome de Roberta Silva Rizzo. Ela é dona do Sabor de Casa, um modesto restaurante em Boa Vista, onde o ex-presidente gastou, em um único dia, R$ 109,2 mil reais. É a maior despesa individual com alimentação registrada em um cartão da Presidência da República.

Conforme destacado pelo UOL, o valor despendido no estabelecimento equivale à compra de 659 marmitas e 2.964 kits com sanduíche, água, maçã e barra de cereal, que foram entregues ao 7º Batalhão de Infantaria de Selva.

Dona de restaurante em que Bolsonaro gastou R$ 109 mil é servidora da Saúde em Roraima. (Imagem: Diário Oficial de Roraima)

Mas a produção de comida não é a única atividade de Roberta. De Olho nos Ruralistas identificou que a empresária é servidora da Secretaria de Estado da Saúde de Roraima (Sesau) desde março de 2012, quando foi nomeada diretora geral de uma “unidade de saúde de médio porte” pelo então governador José de Anchieta Junior (PSDB). Ela havia acabado de se formar, no ano anterior, em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual do Ceará (UFC) e não passou por concurso público, sendo admitida em cargo comissionado.

Na época da nomeação, sua irmã Fernanda Silva Rizzo Aguiar era secretária de Estado do Trabalho e Bem-Estar (Setrabes). A ex-gestora é esposa e sócia do empreiteiro Ítalo Régis Pereira Aguiar, dono da Face Engenharia, que assinou contratos com o governo de Roraima durante a gestão Anchieta. Em 2018, o Ministério Público Federal instaurou contra Fernanda Rizzo uma ação por improbidade administrativa e danos ao erário para apurar um suposto superfaturamento de R$ 901 mil em pagamentos da Setrabes à empresa Mavo Construções, para a realização de obras no Centro de Referência do Idoso de Boa Vista. O processo encontra-se em tramitação no Tribunal Federal Regional da 1ª Região (TRF-1).

Após a saída da irmã da Secretaria, Roberta Rizzo foi alocada no Hemocentro de Roraima, onde exerceu a função de bioquímica pelo menos até novembro de 2022 (último registro disponível). No período em que Bolsonaro e sua equipe efetuaram a compra de R$ 109 mil no restaurante Sabor de Casa, em 26 de outubro de 2021, a servidora da Saúde atuava em cargo efetivo, no período noturno, com remuneração líquida de R$ 4.620,23, conforme dados do Portal da Transparência.

Em um único serviço, portanto, Roberta faturou 23 vezes mais que seu salário mensal.

APÓS ALMOÇO DE R$ 109 MIL, BOLSONARO VISITOU GARIMPO ILEGAL

Bolsonaro defende garimpo em visita à Raposa Serra do Sol. (Foto: Isac Nóbrega/PR)

O número excepcional de marmitas entregues ao batalhão do Exército no dia 26 de outubro de 2021 não foi o único fato “anormal” da visita de Bolsonaro a Boa Vista. Logo após almoçar com os militares, o ex-capitão viajou até o município de Uiramutã, onde se tornou o primeiro presidente na história do Brasil a visitar uma área de garimpo ilegal.

O local escolhido para receber o ato inédito foi a comunidade Flexal, localizada dentro da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, onde, segundo o Conselho Indígena de Roraima (CIR), 4 mil garimpeiros atuam de forma criminosa. Ali, perante um grupo de indígenas pró-garimpo, ele defendeu a aprovação no Congresso do Projeto de Lei (PL) nº 191/2020, de autoria do Poder Executivo, que estabelece condições específicas para a pesquisa e a lavra de recursos minerais em terras indígenas. Além de Bolsonaro, participou da reunião o governador Antonio Denarium (PL).

Conforme divulgado pela Amazônia Real, esse grupo de indígenas pró-garimpo formou a Sociedade de Defesa dos Índios Unidos do Norte de Roraima (Sodiurr), uma organização condenada na Justiça por perseguir líderes indígenas contrários à mineração.

A visita de Bolsonaro à Raposa Serra do Sol foi um dos destaques do relatório “As Veias Abertas”, parte da série Dossiê Bolsonaro, do De Olho nos Ruralistas, que explora a política fundiária do governo passado.

FAMÍLIA RIZZO FOI DONA DE TV LOCAL

Oriunda do Ceará, a família de Roberta Silva Rizzo possui conexões também no campo da mídia. Seu cunhado, Ítalo Régis Pereira Aguiar, foi sócio do Sistema Boa Vista de Comunicação até 2015, quando retirou-se da sociedade. Cleide Silva Rizzo, mãe de Roberta, manteve-se na empresa até 2017.

O grupo é dono da TV Boa Vista, retransmissora do SBT em Roraima. Após a saída da família Rizzo, o grupo foi vendido para Sergio Roberto Bringel, fundador do Grupo Bringel, de esterilização hospitalar. Em 2018, ele foi preso na Operação Maus Caminhos, da Polícia Federal, que investigava desvios na Secretaria de Saúde do Amazonas.

O Grupo Bringel foi também escolhido pelo governo do Distrito Federal para gerir os 197 leitos do hospital de campanha instalado no Estádio Mané Garrincha durante a fase mais intensa da pandemia de Covid-19. O contrato de R$ 97 milhões é alvo de investigação por suspeita de fraude.

| Colaborou Tonsk Fialho é estudante de Direito na UFRJ e pesquisador, com foco em sindicatos e movimentos sociais. |

|| Bruno Stankevicius Bassi é coordenador de projetos do De Olho nos Ruralistas. ||

||| Alceu Luís Castilho é diretor de redação do observatório. |||

Foto principal (Reprodução): restaurante onde Bolsonaro gastou R$ 109 mil pertence à servidora da Saúde.

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