Candidatos de SP preferem defender o setor da cana a participar da FPA

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Entre os 18 deputados paulistas membros da Frente Parlamentar da Agropecuária, 15 são candidatos à reeleição; mas lista exclui expoentes do agronegócio, como Arnaldo Jardim

Por Alceu Luís Castilho e Bruno Stankevicius Bassi

A maior bancada da Câmara, a de São Paulo, não repete essa condição numérica na face mais conhecida da bancada ruralista. Apenas 18 deputados federais paulistas são signatários da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Menos de 10% do total da FPA. Entre esses deputados, 15 tentam a reeleição. Trata-se de uma porcentagem pequena – nacionalmente falando – em relação ao total de 70 deputados no Congresso. Mesmo assim, os paulistas estão entre os que mais possuem membros na FPA, atrás de Minas Gerais (32) e Paraná (20).

Cana também tem frente estadual; à direita, Jardim. (Foto: Divulgação/Welson Gasparini)

Só que essa lista é subestimada. Motivo: nem todo ruralista faz parte da FPA. Os paulistas são mais numerosos – e têm mais poder – em um lobby mais específico: a Frente Parlamentar pela Valorização do Setor Sucroenergético. Nada menos que 219 deputados são signatários dessa frente, criada em 2015. Entre eles, 25 são de São Paulo – mais do que a quantidade de paulistas na Frente Parlamentar da Agropecuária.

O caso mais ilustrativo é o do deputado Arnaldo Jardim (PPS), presidente da frente canavieira. A cana de açúcar é a monocultura mais presente no estado. Compromissado com o setor, Jardim ganhou dele homenagem em março. Secretário de Agricultura durante o governo de Geraldo Alckmin, o parlamentar defende também a citricultura – outra cultura muito presente no estado.

A existência de uma frente parlamentar específica para o setor da cana mostra como o agronegócio não tem apenas a Frente Parlamentar da Agropecuária – dominada por grupos específicos – como instrumento de pressão. O deputado mineiro Newton Cardoso Júnior, por exemplo, atua na Frente Parlamentar da Silvicultura. Outros parlamentares alinham-se em torno do setor do fumo. Outros, do café – como vimos no caso de Minas e veremos no caso do Espírito Santo. Confira aqui a relação do deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP) com o mundo das laranjas: “Réu, “deputado das laranjas” transfere bens para os filhos e fica mais pobre“.

A Frente Parlamentar pela Valorização do Setor Sucroenergético reuniu-se em 2017 com o presidente – e ex-deputado paulista – Michel Temer [ver foto principal]. Outras frentes, entre elas a FPA – onde não são os paulistas que mandam – e a frente em defesa do biodiesel, estiveram presentes nesse evento de apoio ao RenovaBio. Esse programa lançado pelo governo Temer, em 2016, visa a expansão do setor de biocombustíveis no Brasil. É apoiado por entidades empresariais, como a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica).

Entre os tucanos ligados diretamente ao setor da cana está o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O observatório mostrou, em maio, em uma série de 27 reportagens – depois desenvolvida com novos dados na revista CartaCapital – que os filhos dele possuem (ele transferiu a eles sua parte) um canavial na beira do Rio Pardo, em Botucatu. A prefeitura tucana desapropriou uma das fazendas para a construção de uma represa e pagou por isso R$ 5. FHC não quis informar para quem as terras são arrendadas.

RURALISTAS AUSENTES DA FRENTE

Há outros deputados nessa condição de ruralistas “sem FPA”. Eduardo Bolsonaro (PSL), filho do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), alinha-se completamente aos defensores do agronegócio. Seu pai, paulista de Glicério, no oeste do estado, tem dado sucessivas declarações contra terras indígenas e quilombolas. “Nem um centímetro a mais”, repete ele. O capitão adota também discurso virulento contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).

Tucanos como Lobbe Neto e Vanderlei Macris também votam de forma sistemática a favor das causas do agronegócio. Mas igualmente não fazem parte da FPA. É o mesmo caso do cantor Sérgio Reis (PRB). Reis, Bolsonaro e Macris estão entre os 25 deputados paulistas que compõem a frente em torno da cana de açúcar.

Após as eleições, o observatório fará uma identificação detalhada – e inédita – da nova bancada ruralista, com critérios que incluam esses ruralistas ausentes da principal frente parlamentar, mas alinhados ao agronegócio. Entre filiações a outras frentes, atuação sistemática em defesa do setor e propriedade de terras e empresas agropecuárias, entre outros.

Antes do primeiro turno, até o dia 30 de setembro, a série De Olho na Bancada Ruralista traz informações, por estado, sobre os candidatos alinhados ao agronegócio: “Observatório estreia série sobre candidatos ruralistas, por Unidade da Federação“. A série começou no dia 10 com texto sobre a bancada ruralista mineira: “Minas: maior bancada ruralista do Congresso tem 26 integrantes tentando reeleição“.

PAULINHO DA FORÇA INDICOU FILHO PARA O INCRA

Entre os membros paulistas da Frente Parlamentar da Agropecuária que não são candidatos à reeleição destaca-se o nome do deputado licenciado Duarte Nogueira Junior (PSDB), atual prefeito de Ribeirão Preto. Ex-secretário de Estado da Agricultura, dono de fazenda em Iturama (MG), ele indicou a mulher, proprietária de três imóveis rurais no Paraná, como candidata à Câmara. Nogueira já foi secretário-geral da FPA.

Servidores do Incra protestaram contra indicação de Paulinho. (Foto: Sindsef)

A lista de integrantes da frente candidatos à reeleição inclui o deputado federal Nelson Marquezelli, que motiva reportagem específica nesta série: “Réu, ‘deputado das laranjas’ transfere bens e omite empresas”. Entre outros representantes de famílias do interior ligadas ao setor, como o engenheiro agrônomo Mendes Thame e a advogada Bruna Furlan, ambos do PSDB.

Mais um réu da Operação Registro Espúrio, assim como Marquezelli, compõe a bancada da FPA que busca a reeleição: é o deputado Paulo Pereira da Silva (SD), mais conhecido como Paulinho da Força. Em 2016, quando Michel Temer ainda era presidente interino, ele indicou o filho Alexandre Pereira da Silva – um modesto produtor de pimentões- para a superintendência regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Os servidores do Incra em São Paulo protestaram contra a indicação política, à margem de uma lista tríplice encaminhada ao presidente do Incra com nomes de profissionais de carreira, com perfil para o cargo. Formado em Administração, o filho de Paulinho da Força deixou o cargo para disputar a reeleição para a Assembleia Legislativa.

O DEPUTADO DOS BOIS VIVOS

Do litoral emerge a figura de Beto Mansur (MDB). Em fevereiro, seu nome ganhou projeção pela sua intervenção na liberação do navio Nada, carregado com 27 mil bois vivos, com destino à Turquia. A “carga” pertencia à Minerva Foods, segundo maior frigorífico do Brasil e maior exportadora de gado vivo do continente, segundo o portal da empresa.

O embarque havia sido suspenso por liminar, um dia após a Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp) autorizar a retomada das operações com carga viva no terminal Ecoporto. O caso rendeu duas multas à Minerva: uma de R$ 1,5 milhão, por maus tratos durante o transporte dos animais, e outra de R$ 2 milhões por poluição ambiental decorrente do odor de fezes e urina que impregnou os bairros vizinhos do porto.

Embarque de 27 mil bois vivos da Minerva foi agilizado após intervenção de Mansur. (Foto: Reprodução/TV Tribuna)

A intervenção de Beto Mansur foi certeira. A pedido do presidente Michel Temer e do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, o deputado realizou uma inspeção no navio. Relatou que os animais não apresentavam sinais de maus tratos e estavam apenas sujos. Aos gritos de “vendido” e “assassino”, foi hostilizado por manifestantes contrários ao embarque. Seu parecer foi decisivo para a liberação do navio que, após nove dias de impasse, finalmente partiu rumo à Turquia no dia 4 de fevereiro.

Membro da “tropa de choque” de Temer e vice-líder do governo na Câmara, Mansur foi prefeito de Santos entre 1997 e 2004. Na época, era afilhado político de Paulo Maluf (PP). Durante esse período, teve início a investigação da Polícia Federal sobre o pagamento de propinas a Michel Temer por empresas do porto de Santos. De acordo com a Agência Lupa, Mansur era o recordista de ações na Justiça entre os candidatos à presidência da Câmara em 2016, com 56 processos judiciais.

Mansur também é pecuarista. Em 2010, quando concorria ao seu segundo mandato como deputado federal, declarou possuir 9.683 cabeças de gado, além de 520 novilhos da raça Nelore e 10 touros da raça Montana. O patrimônio de R$ 16,2 milhões ainda incluía uma propriedade de 420 hectares em Bonópolis (GO) e maquinaria agrícola. Mas, diferentemente de outros políticos, seus bens encolheram: em 2018, declarou apenas R$ 2,7 milhões, 83% a menos do que em 2010.

Beto Mansur (MDB) lidera missão de deputados da Comissão de Viação e Transportes da Câmara. (Foto: Divulgação/PRB)

Os bens foram transferidos para a Agropecuária Triângulo, de propriedade de Beto Mansur e sua mulher, Ylidia. A empresa consta na lista de estabelecimentos habilitados pelo Ministério da Agricultura para exportar gado bovino à União Europeia. Em 2004, a fazenda em Bonópolis foi alvo de uma operação do Ministério do Trabalho que flagrou 46 pessoas, incluindo sete menores de 18 anos, em condições análogas à escravidão. O deputado foi condenado, em 2014, a pagar indenização de R$ 200 mil por dano moral coletivo.

Confira abaixo a lista dos deputados paulistas da Frente Parlamentar da Agropecuária e o que eles pretendem em 2018.

 

 

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