Cartes com empresários: “Sintam-se em casa” (Foto: @PresidenciaPy)

“Usem e abusem do Paraguai, porque, para mim, é um momento inacreditável de oportunidades”. A frase foi dita pelo presidente do Paraguai, Horacio Cartes, a empresários brasileiros, em 2014, quando recebeu representantes da Confederação da Indústria e do Comércio do Brasil (CNI). Durante a fala, Cartes intercalou trechos em português com trechos em espanhol: “Todo con Brasil, nada contra Brasil. Sintam-se em casa”.

O trecho sobre usar e abusar foi repetido por quase todos os entrevistados pelo De Olho nos Ruralistas na elaboração desta série de reportagens. Só que ele não aponta apenas para o que aconteceu após 2014. Sintetiza também o que vem ocorrendo há décadas no campo, como começamos a mostrar na reportagem inicial: “Proprietários brasileiros têm 14% das terras paraguaias”.

Os Estados Unidos ainda lideram os investimentos paraguaios, informa Gustavo Rojas, do Centro de Análise da Economia Paraguaia. Mas o país estaria em retirada. “O estoque de investimentos estadunidenses caiu 40%”, analisa. “O investimento brasileiro aumenta e, em cinco anos, vai passar a ser a principal origem do investimento estrangeiro”.

Cartes em encontro com investidores brasileiros. (Foto: @PresidenciaPy)

Rojas conta que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financia tratores e colheitadeiras para os agricultores brasileiros. “O Paraguai é o principal destino para as máquinas agrícolas, junto com a Argentina”, relata. O BNDES também financiou uma estrada, em 2003, ligando Guaíra (PR) a Salto del Guairá, no Paraguai – de onde sai a Ruta 10, para Assunção.

A ocupação territorial ocorre, portanto, simultaneamente aos investimentos. E leva a assinatura direta de fazendeiros e empresários brasileiros. Muito embora o presidente Michel Temer – outro célebre perpetuador de gafes – já tenha confundido o nome do país vizinho: de Paraguai para Portugal.

Essa expansão pode ser percebida também pelo avanço das culturas, da soja à cana, do arroz à pecuária.

SOJA: SÍMBOLO DO AVANÇO BRASILEIRO

Cartes, Temer e as gafes (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

A face mais conhecida desse avanço é a soja. Não é incomum os colonos brasileiros serem definidos como sojicultores. Cultivam mais que isso, mas a soja se destaca. Ela se soma ao milho, ao trigo e ao girassol, produzidos em rotação. Dados da Câmara Paraguaia de Comercializadores e Exportadores de Cereais (Capeco) mostram que a oleaginosa representa 12% do Produto Interno Bruto (PIB) paraguaio e 55% das exportações.

Segundo a Oxfam, o crescimento foi explosivo nas últimas três décadas. Período que coincide com o avanço da colonização brasileira. A pesquisadora Inés Franceschelli menciona os tratorazos – em Assunção e outras regiões – de sojicultores brasileiros como um dos exemplos dessa força. Outro exemplo é o desrespeito à lei que proíbe cultivos em uma região fronteiriça de 50 quilômetros, a Zona de La Seguridad Fronteriza. “Não se cumpre”, ela resume.

O avanço brasileiro ocorreu principalmente a partir da fronteira com o Paraná. Tudo isso se passa na região Oriental do país, ao leste do Rio Paraguai. A capital Assunção fica exatamente no início dessa região, em uma das margens do rio. A oeste está o Chaco. O avanço iniciado no extremo leste, na fronteira com o Brasil, se consolida por todos os departamentos, com mais ou menos intensidade.

Dois departamentos fronteiriços com o Paraná, Canindeyú e Alto Paraná, contribuíram com 46%, somados, da produção paraguaia de soja em 2015, de 8,1 milhão de toneladas, conforme os dados da Capeco. Tudo isso tem um impacto no território. Nos últimos 20 anos a área plantada de soja vem crescendo de forma constante, alcançando 3,38 milhões de hectares na atual safra. Cerca de 8% da área total do Paraguai, de 40,68 milhões de hectares.

Evolução da área plantada e da produção comercial (1996-2017), com participação direta de brasileiros

Fronteiras é um dos seis grandes temas da série De Olho no Paraguai. Com seis reportagens – a partir do dia 12 de novembro – que mostram a marcha dos fazendeiros brasileiros para o Oeste, Norte e Sul do Paraguai.

E TEM A PECUÁRIA, A CANA, O ARROZ…

A cultura da cana-de-açúcar se prolifera no centro da região Oriental, nos departamentos de Guairá, Paraguarí e Caaguazú – que não fazem fronteira com o Brasil. Aqui vale um reforço geográfico para os leitores brasileiros: a região Oriental é a mais populosa do Paraguai. É ali, portanto, que mora a maioria dos colonos brasileiros. Ela se diferencia do Chaco por ter sido região de Mata Atlântica – hoje quase totalmente desmatada.

A pecuária já consolidada no Leste agora avança para o Oeste. O Chaco consiste na Região Ocidental do Paraguai, a menos populosa, ambientalmente mais preservada e com maior população indígena. Os pecuaristas brasileiros avançam para o Chaco de vários pontos da região Oriental, em particular do departamento de Concepción, mas também do Mato Grosso do Sul, pelo departamento de Alto Paraguay.

Cultura agropecuária dos brasileiros no Paraguai muda conforme a região

Essa vertente pecuarista será descrita no capítulo Invasores do Chaco. Com exemplos de brasileiros que protagonizam desmatamento e invasão de terras indígenas. Cada um desses movimentos dos fazendeiros brasileiros será detalhado ao longo das 36 reportagens da série. De Olho no Paraguai conta dezenas de casos de latifundiários brasileiros e empresas agropecuárias atuantes nessas regiões, a partir de um diferente cardápio de culturas.

Como o sul do Paraguai, onde os brasileiros chegam para plantar arroz. Em departamentos como Ñeembucú e Misiones, na fronteira com a Argentina. Detalhe: a produção de arroz no Paraguai triplicou nos últimos seis anos. Como o Brasil é, desde 2014, o maior importador de arroz do país, trata-se, nesse caso, de uma lógica econômica da barba, cabelo e bigode. Os brasileiros batem o escanteio e ao mesmo tempo cabeceiam. O goleiro é aquele que diz “usem e abusem”.