Estância Miranda, no Chaco, do brasileiro Apolinario Souza. (Reprodução: Facebook)

O fazendeiro sul-mato-grossense Apolinário Adames de Souza é dono de 11 mil hectares no distrito de Fuerte Olimpo, capital do departamento chaquenho de Alto Paraguay. Sua história se cruza com a de um personagem bem mais conhecido: o falecido reverendo Moon. A seita comandada pelo sul-coreano é a maior proprietária de terras no Paraguai. Possui centenas de milhares de hectares em fazendas na fronteira com o Brasil, onde busca construir um “novo Éden”.

De acordo com relatório de impacto ambiental submetido à Secretaria do Meio Ambiente do Paraguai (Seam), o brasileiro atua na produção de gado e de carvão vegetal. Ele entra na lista de latifundiários elaborada pela Oxfam, que divulgamos na primeira reportagem da série De Olho no Paraguai, como o 16º maior proprietário brasileiro de terras no país vizinho. O relatório ambiental apresentado por Apolinário defendia a necessidade de desmatamento, com máquinas pesadas e correntes. Depois, fogo.

As fotos de 2012 e 2016 apresentadas com orgulho pelo próprio pecuarista em rede social, o Facebook, mostra que isso já foi feito: elas mostram bois e búfalos passeando em pastos com poucas árvores ao fundo. O eixo Invasores do Chaco tem mostrado o desmatamento nessa região que engloba Paraguai, Argentina, Bolívia e até um trecho do Mato Grosso do Sul – onde mora o pecuarista. A relação com a Seita Moon é de disputa.

ÉDEN DESMATADO

Nos primeiros dois eixos da série De Olho no Paraguai – Subimpério e Fronteiras – vimos alguns políticos brasileiros que se tornaram fazendeiros no Paraguai. Alguns deles envoltos em denúncias de corrupção e narcotráfico. A região do Chaco não escapa à regra. Apolinário já quis ser prefeito de Jardim, no Mato Grosso do Sul, pelo PL. É lá que ele reside. Em 2009 se filiou ao PSDB. E em 2011 migrou novamente, dessa vez para o PMDB.

A localidade de Puerto Leda, onde está a fazenda paraguaia de Apolinário, é uma região prioritária para o ecoturismo no Alto Paraguay. Zona de transição entre Pantanal e Chaco e lar de indígenas da etnia Chamacoco, Puerto Leda recebeu, em 2000, um investimento de US$ 5 milhões da Fundación para el Desarrollo Sustentable de las Américas,  para a criação de um polo turístico em uma área de 80 mil hectares.

Essa fundação pertence à Federação para a Paz Universal, um dos braços do império econômico construído pelo reverendo sul-coreano Sun Myung Moon. A seita Moon tem pelo menos 34 propriedades rurais no Mato Grosso do Sul e outras tantas no Paraguai. Pelo “novo Éden”, paga-se. O presidente do projeto Puerto Leda, o japonês Minoru Tanaka, é um dos líderes do grupo no Paraguai.

Localização das propriedades de Moon no Brasil
Localização das propriedades de Moon no Brasil. (Imagem: Correio do Estado)

VIZINHOS NO CHACO

Vizinhos no Paraguai, Apolinário Adames de Souza e a seita Moon começaram sua relação ainda em terras brasileiras. Em abril de 2002, o pecuarista brasileiro prestou depoimento à Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul, na Comissão Parlamentar de Inquérito que investigava a compra de terras no estado pela Associação das Famílias para a Unificação e Paz Mundial (AFUPM), braço brasileiro da seita Moon.

A associação comprou em 1999 duas fazendas pertencentes à família de Apolinário. Uma delas, a Fazenda Figueira, tem sido, desde então, alvo de intensa disputa judicial. Um ano antes da assinatura do contrato de promessa de compra e venda com a associação, o brasileiro havia arrendado parte da fazenda ao também pecuarista Alceu Zanata Poletto, por um prazo de nove anos. No contrato, a AFUPM permitiu que o arrendatário ficasse na propriedade até 2001.

Como as rendas não foram pagas, deu-se início a uma ação judicial que azedou as relações entre Apolinário e os dirigentes da seita Moon. Em 2009, o pecuarista deu início a um processo de execução contra a associação, no valor de R$ 70 milhões. O advogado da igreja propôs um acordo reconhecendo uma dívida de R$ 40 milhões. Mas um estudo encomendado pela associação junto ao escritório de advocacia Tozzini Freire considera que houve “ação abusiva” por parte do advogado da própria AFUPM.

UMA FAZENDA DE MUITOS DONOS

Localizada a 66 quilômetros de Bonito, a Fazenda Figueira está em uma das regiões mais valorizadas do Mato Grosso do Sul, com preço médio por hectare superando R$ 8 mil. Com 9.500 hectares, o valor da fazenda é estimado em mais de R$ 67 milhões. Em 2006, já em posse da seita Moon, a fazenda foi ocupada por mais de 200 famílias pertencentes ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).

O mesmo terreno havia sido ocupado em 1999, quando 130 famílias ligadas à Federação dos Trabalhadores da Agricultura (Fetagri) acamparam nas margens de uma das estradas que cortam a fazenda. Curiosamente, mesmo já tendo vendido a fazenda à Associação das Famílias para a Unificação e Paz Mundial, Apolinário processou o estado do Mato Grosso do Sul em R$ 450 mil, a título de multa por um atraso de 45 dias na reintegração de posse.

Jamil entre os filhos Jamilson e Jamilzinho: relação com bicheiros e políticos. (Foto: Reprodução)

Com a morte do reverendo Moon, em 2012, e a consequente derrocada de seu império econômico-religioso, a Fazenda Figueira foi vendida a Jamil Name Filho. Em 2007, Jamilzinho, como é conhecido, foi preso pela Operação Xeque-Mate, da Polícia Federal sob acusação de pertencer à “Máfia dos Caça-Níqueis”. Seu pai, Jamil Name, foi também apontado como operador de jogos de azar em Campo Grande. Outras 79 pessoas foram presas, entre elas o ex-deputado estadual Nilton Cezar Servo (PSB-MS), apontado como chefe da quadrilha. Servo morreu em 2015.

As relações políticas da família não param por aí. O tio de Jamilzinho, o ex-deputado Jerson Domingos (PMDB-MS), foi presidente da Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul e presidente da CPI que investigou a seita Moon. Atual conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Jerson Domingos voltou a ter seu nome veiculado na imprensa quando sua ex-esposa invadiu uma de suas fazendas armada e tentou matar um funcionário.

Todos eles – Jamil, Jamilzinho, Nilton e Jerson – são pecuaristas. E todos eles ligados à política local. Não sem novidades: o filho caçula de Jamil Name, Jamilson, anunciou sua pré-candidatura a deputado estadual em 2018 pelo PDT, mesmo partido pelo qual o ex-juiz Odilon de Oliveira – uma das principais vozes contra o crime organizado no estado, tema de reportagem no eixo Fronteiras – concorrerá ao governo do estado.

Fazenda Nova Esperança, no MS: fé e império agrário. (Fonte: reverendomoon.com)

GRILAGEM, TRÁFICO E FUTEBOL

A história dominial da Fazenda Figueira envolve outro personagem da reportagem do observatório sobre tráfico de drogas, Odacir Antônio Dametto: “Latifundiários brasileiros acusados de tráfico têm fazendas no Paraguai”. Em 2013, Jamil Name Filho moveu processo de reintegração de posse contra o fazendeiro e traficante Dametto, que já foi conhecido como “Rei da Soja” no Paraguai, e seus filhos Renato e Rodrigo.

Em 2009, segundo Jamil Name, o pai, a família Dametto havia arrendado 200 hectares da fazenda, então pertencente à seita Moon. Em quatro anos, foram grilados – de acordo com o denunciante – 3 mil hectares para a criação de gado. Após a morte de Odacir Dametto, em 2012 (mesmo ano da morte do reverendo), os filhos do “Rei da Soja” alegam que os Dametto estão na área há mais de 30 anos.

A Fazenda Figueira, da família Adames de Souza, nasceu de um desmembramento da antiga Fazenda Aurora, que pertenceria a Odacir. Segundo Jamil Name, a documentação apresentada pelos Dametto é falsa. Em 2016, a Polícia Militar Ambiental autuou os proprietários em R$ 2,3 milhões por danos ambientais nas nascentes e matas ciliares de afluentes do Rio da Prata. As áreas de preservação permanente (APP) estavam sendo pisoteadas pelo gado, gerando erosão do solo.

Essa não foi a única batalha judicial da familia Name. Cinco anos antes, em 2008, Jamil e Jamilzinho processaram o jogador de futebol Diego, meio-campista do Flamengo e da seleção brasileira, por uma transação de 1,6 mil cabeças de gado, avaliadas em R$ 10 milhões. Alegaram que a transação não foi quitada. O caso chegou ao Superior Tribunal de Justiça, que deu ganho de causa a Jamil Name.

Primeira visita do Reverendo Moon à Fazenda Nova Esperança, em Jardim-MS. (Foto: Reprodução)

FÉ NA TERRA, PÉ NA BOLA

Maior proprietária individual de terras no Paraguai, segundo levantamento da Oxfam, a seita Moon iniciou sua investida sobre o Chaco em 2000. Naquele ano, a empresa argentina Carlos Casado S.A. – que será tema de reportagem no eixo As Empresas – transferiu cerca de 600 mil hectares, o tamanho da Palestina, para a Iglesia para la Unificación del Cristianismo Universal, braço paraguaio da seita fundada por Sun Myung Moon.

A Igreja da Unificação foi fundada em 1954, na Coreia do Sul. Os seguidores do reverendo acreditavam que o religioso seria a segunda encarnação de Jesus Cristo, destinado a concluir a missão de trazer paz à Terra. No auge de popularidade da seita, Moon e sua esposa, chamados pelos seguidores de Verdadeiros Pais, construíram um império econômico e deram início a um agressivo plano de compra de terras na fronteira entre Brasil e Paraguai.

No lado brasileiro, o grupo chegou a ter 83 mil hectares, além de hotéis, imóveis residenciais, postos de combustível e até mesmo clubes de futebol. Fundado por seguidores do religioso, o Cene venceu seis títulos estaduais e, no início da década, chegou a disputar a série D do Campeonato Brasileiro. Por meio de empresas do grupo, também comprou o Atlético Sorocaba, de São Paulo.

O principal ativo do grupo, a Fazenda Nova Esperança (New Hope) tornou-se um centro de peregrinação para seguidores de todo o mundo, tornando-se alvo de investigação pelo Exército brasileiro. O motivo? O reverendo sul-coreano anunciou em Nova York – onde, em 1984, foi preso por sonegação fiscal – que criaria zonas de paz sob administração das Nações Unidas em regiões de conflito ao redor do mundo. E usaria as terras que vinha comprando no Brasil e no Paraguai como moeda de troca com os países que aceitassem participar de seu plano rocambolesco.

Missionários da Seita Moon em Puerto Leda, Alto Paraguay. (Foto: Reprodução)

Apesar do poder econômico acumulado pela seita durante seis décadas, a morte do reverendo Moon precipitou uma cisão entre dois dos filhos do sul-coreano. Em meio a disputas internas, o grupo acumulou dívidas milionárias nos dois lados da fronteira. Entre os passivos, dezenas de multas por infrações ambientais, pendências trabalhistas e acusações de lavagem de dinheiro.

NO CHACO, MISÉRIA

Em Puerto La Victoria (anteriormente chamada Puerto Casado), 800 quilômetros ao norte de Assunção, o grupo religioso também é protagonista de conflitos com os moradores. Os 6 mil habitantes da cidade vivem em condição de miséria, apinhados em uma área de 262 hectares. Apesar da expropriação pelo governo de Nicanor Duarte (2003-2008) de 52 mil hectares, entre os 600 mil hectares pertencentes à seita Moon, o grupo se negou diversas vezes a ceder as terras.

Em 2008, a Iglesia de la Unificación foi alvo de denúncias por transferir paulatinamente títulos de terra a empresas de fachada, sediadas na capital do Uruguai, Montevidéu.